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Artigo | Você como um criador

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919. Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal? “Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”

919 – a) Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo? “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma. (…)” (Santo Agostinho – O Livro dos Espíritos – Allan Kardec)

É interessante perceber que no Livro dos Espíritos existe uma orientação bem prática sobre o conhecimento de nós mesmos e que poucos de nós conseguimos utilizá-lo como um método para a própria vida. Realmente, ao ler a pergunta numa visão abrangente, ela se torna desafiadora e até mesmo um pouco difícil, pelos detalhes que Santo Agostinho sugeriu como exercício.

Lembro-me quando por volta dos meus 23 anos tentei aplicá-lo em minha vida, refletindo antes de dormir, sobre como tinha sido meu comportamento durante o dia. Procurei fazer uma avaliação mais simplificada, dividindo-a nos seguintes termos: dia ruim, dia regular ou dia bom.

Por exemplo: se durante o dia eu tivesse agido com mau-humor, tratado negativamente as pessoas, ou me perturbado profundamente com alguma situação, certamente o classificava como um dia ruim e procurava não fazer julgamento dos atos, mas sim, aprender com eles na perspectiva de melhorar nos dias seguintes. Mas, se o dia tivesse apresentado uma oscilação entre aspectos negativos e positivos, dentro de um propósito de fazer o bem às pessoas e eu estar bem, classificava-o como um dia regular. Se o dia incluía fazer palestra ou se estava comprometido com as atividades do centro espírita ficava mais centrado no trabalho a fazer, estudava com maior dedicação, e dessa forma, muitas vezes, quando terminava o dia, observava claramente que tinha sido um dia bom. Devo confessar que no período inicial do processo raríssima vezes isso acontecia com naturalidade, pois sempre percebia em mim momentos de perturbação ou de desequilíbrio atravessando os relacionamentos.

Procurava fazer tudo com muita sinceridade, sem aumentar as repercussões dos erros no meu íntimo para que pudesse realmente cumprir essa proposta de uma forma mais espontânea.

O que me impressionou com essa prática, foi que, com o passar dos meses, aquelas semanas em que predominava o maior número de avaliações como sendo de dias ruins, aos poucos passaram a predominar os dias regulares, mas, ainda muito poucos eram avaliados como dias bons.

Cheguei ao ponto de ter semanas com uma predominância de dias regulares com um ou até mesmo nenhum dia classificado como ruim e aparecendo mais vezes os dias classificados como bons. Fiz esse trabalho durante praticamente uns dois anos, e o que pude perceber é que no final do segundo ano, era difícil aparecer uma semana em que um dia tivesse sido avaliado como ruim. Não que não me ocorressem comportamentos negativos, mas era mais difícil sua repetição e a manutenção dos estados emocionais ligados a eles. Com o decorrer do tempo seu surgimento foi se espaçando cada vez mais.

Depois dos dois anos, com a prática condicionada, no intuito de fazer minha reforma íntima e apoiado pelos trabalhos que faço profissionalmente na área da Psicologia, a técnica foi se aperfeiçoando e hoje posso perceber o quanto é importante para nossas vidas um trabalho como esse, orientado pela própria doutrina, que redunda na melhoria de nós mesmo, através da percepção de quem somos no dia-a-dia, criando um propósito de regeneração e como efeito natural, uma contribuição nossa para a mudança do planeta.

Sabemos que as transformações pelas quais o planeta Terra precisa passar irão acontecer de qualquer forma, tanto pelas finalidades e programações que cada orbe tem dentro do Universo, quanto pela força da Lei de Progresso que é exata e real. Essa mudança ocorrerá, mesmo que não queiramos, dando seu salto no quadro evolutivo planetário.

Se não conseguirmos acompanhar esse movimento, seremos, é claro, convidados a trocar de moradia educativa, para promovermos nossa renovação em outro orbe do Universo, condizente com nossas condições e necessidades espirituais e materiais.

Fica claro também, que suas bases de transformações não acontecerão apenas de fora para dentro, pelas determinações da Lei de Progresso, mas,  principalmente, através de nossa conscientização pessoal, numa perspectiva de dentro para fora, já que o espírito é o motor da vida e é por ele que as coisas precisam acontecer operando seus resultados no mundo exterior.

Essas mudanças já começaram em todo o planeta desde que surgiram as primeiras informações sobre a natureza do espírito, bem como toda gama de conhecimentos decorrentes dessa realidade. Nesse contexto a Doutrina dos Espíritos vem favorecendo acentuadamente essas transformações através de suas obras, baseadas numa investigação metódica e organizada em sua base por Allan Kardec. Este movimento continua se expandindo pela ação direta dos espíritos responsáveis pelas transformações da Terra sob influência direta do Cristo de Deus, que elaborou um propósito de torná-la um planeta elevado e nobre no cenário universal.

Hoje, depois de tantos anos de prática, pude perceber que não precisamos mais esperar chegar o final do dia, para fazermos essa avaliação do comportamento. Qualquer um de nós poderá averiguar por si mesmo que através do autoconhecimento, poderemos fazer o processo de auto-observação a cada instante de nossas vidas, dentro dos relacionamentos diários, desenvolvendo uma sensibilidade perceptiva, no exato momento em que cada fato acontece realmente, a fim de podermos ter contanto com suas características reais.

Dessa forma o processo de conhecimento de si mesmo é o meio adequado para o êxito da tarefa, bastando tornarmo-nos atentos e focados no que está acontecendo conosco, diminuindo a valorização que damos aos outros e aos aspectos externos, como se esses tivessem um peso maior do que o que estamos produzindo por dentro, sendo que na verdade, o que nos faz mal realmente não vem de fora, mas sim, daquilo que trazemos por dentro.

O autoconhecimento é realizado no momento em que as coisas estão acontecendo. Essa sugestão Agostiniana, nos aproxima da fala de Jesus que nos orientou: “Olhai, vigiai e orai;”.[1]

Abordaremos este tema com maior amplitude no próximo artigo: ”Autoconhecimento e espírito”.

Samuel Gomes é psicólogo e palestrante. Ministra cursos e realiza trabalhos com grupos de vivências sobre autoconhecimento.

É autor da obra “A verdade além das aparências – o universo interior”.

Disponível em todas as livrarias do país a partir de agosto desse ano.

Editora Dufaux.

www.editoradufaux.com.br/contato 


[1] Marcos 13:33.

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