Notícias

Compreendendo e curando as feridas

Feridas

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” - Jesus [1]

O verbo compreender significa conter, abarcar em si mesmo, em sua natureza; estar ou ficar incluído; abranger-se e estender a sua ação a outrem ou alguma coisa. Portanto, quando compreendemos algo ou alguma situação, no sentido acima colocado, significa que nos referenciamos em um conteúdo inerente à nossa individualidade, à essência de nosso ser e assim, naturalmente, passamos a modificar o modo pelo qual nos relacionamos com o outro ou com a vida, aplicando esse conhecimento que foi revelado de si para si mesmo e por conseguinte, ao próximo.

Compreender é aceitar as feridas

Amar a nós mesmos e aceitarmo-nos como somos e, inclusive, às nossas mazelas, implica em buscar a compreensão e aceitar as nossas próprias feridas, curando-as, pois o amor cuida e cura. A pessoa mais importante para a nossa vida se encontra diante dos nossos espelhos. E se podemos curar o outro pela palavra, pelo afeto, ou pelo simples cuidado, mais ainda podemos curar a nós mesmos com esses mesmos recursos.

Na maioria das situações que vivemos, ou sempre, somos os autores de nossas feridas. Então, como no próprio veneno da serpente se encontra seu antídoto, guardamos em nós o medicamento da doença que causamos a nós mesmos.

Toda cura verdadeira nada mais é do que um processo de autocura.

“Tua fé te curou” [2], assim asseverava Jesus.

Para acessarmos esta força, inerente a todo filho de Deus, precisamos buscar e caminhar com fé em nossos próprios recursos, enchendo-nos de confiança em nossa capacidade de agir e superar todos os desafios do crescer, sejam eles quais forem.

Ninguém é destituído de dons e talentos Divinos, pois o Pai Maior não escolhe nenhum filho como predileto, simplesmente somos nós que O abandonamos ao escolhermos correr o mundo em busca de satisfações pessoais transitórias que adoecem nosso corpo e nossa alma.

Caminho

Nosso lugar favorito

Lembro-me de um filme que assisti recentemente, chamado “Um homem de família”. Ele conta a história de um caçador de talentos de executivos e profissionais de elite, que ganha comissão e progressão na sua empresa, conforme as indicações que consegue encaminhar para os clientes. O filho dele é portador de uma doença grave, possivelmente fatal chamada LLA (Leucemia Linfoblástica Aguda), e o tratamento não vai muito bem. Num determinado momento do filme, com a criança já em coma num leito de hospital a esposa dele se expressa desta forma contundente: “Eu não vou permitir que você o prenda numa máquina, apenas para recuperar um tempo perdido”.

Antes disso, o médico assistente tinha falado sobre a importância da voz dos pais e o efeito curativo do amor. E o pai questionava essa postura, pois depositava sua expectativa apenas em face das possibilidades de tratamento e dos recursos que estavam ali disponíveis.

Até aquele instante ele esperava que apenas os recursos da ciência seriam capazes de curar seu filho. E ele o queria de volta, desesperadamente, apenas para que tivesse mais tempo de se redimir como pai diante do seu filho, pois em decorrência do trabalho que o ocupava, sempre tivera pouco tempo para estar com ele.

Após a advertência da esposa, ele passou a refletir o quanto estava sendo egoísta e passou a ficar mais tempo ao lado do leito e a falar regularmente com o filho que se encontrava em coma induzido. Transmutou a energia do egoísmo em desapego, generosidade e entrega. Em uma conversa com o médico, este relata uma pergunta que tinha feito ao filho dele alguns dias antes:

— “Qual seu lugar favorito no mundo?”

E a criança responde: — “Minha casa! Tem um degrau na escada de entrada que só faz barulho quando ele chega, então eu fico atento à noite, pois ele é alto o suficiente para fazê-lo ranger. E eu deixo a luz do meu quarto acesa só para ele ir apagar. Deixo ele pensar que a luz estava acesa para eu estudar, mas é só para ele vir ao meu quarto mesmo. É que ele trabalha muito, sai cedo e chega tarde, mas quando chega deixa seu perfume no meu quarto e eu gosto, pois tem cheiro de pai”.

Então, o pai compreende que amar é estar pronto para se dar. Sempre temos algo de bom para dar, mesmo quando temos o coração doído por uma provável perda ou por se perceber imperfeito.

E este pai que se descobre falido, mas aceita sua queda, passa a abrir mão de maiores ganhos, pois descobre que já tem tudo o que (realmente), precisa em casa. E toma atitudes que acaba fazendo com que seja demitido.

O menino vai se recuperando, e o filme nos mostra o valor do amor, do cuidado, da presença, da voz, e até do cheiro de pai. Confesso que lembro do perfume do meu pai até hoje, mesmo sem senti-lo e isso me faz bem.

Aquele homem de família dá a volta por cima, trabalhando em casa e ficando mais perto do filho. E a atitude dele em relação à família acaba reverberando e modificando o antigo chefe, extremamente mercantilista, que o libera de um acordo de não concorrência após a demissão, permitindo que ele abra uma empresa no mesmo campo de atuação, coisa que jamais teria feito antes.

Vejam como o amor pode curar. É um filme, mas situações reais e similares são fáceis de se encontrar.

Isto tudo que contei é para mostrar que quando a gente não cuida de curar nossas feridas, no exemplo do filme é a do egoísmo, o destino vem e nos mostra o valor da dor, do revés, da queda e da doença em nós mesmos, ou naqueles que amamos e que a vida nos colocou ao lado para nos trazer grandes lições e aprendizados.

Feridas

Precisamos de amorosidade

Amorosidade é um estado de espírito e de conduta de quem sintoniza a frequência do amor. Um estado interno de coerência e serenidade que se expressa numa forma de conduta afetuosa, mas que só é fruto de um sólido bem-estar consigo mesmo [3].

Sintonia com nossa essência, herança, potencialidade.

Expressa-se na caridade conforme, questão 886 de O livro dos espíritos:

  • Benevolência para com todos;
  • Indulgência para as imperfeições alheias; e
  • Perdão das ofensas.

Assim como aplicamos essas atitudes a nós mesmos.

 O amor a si mesmo e diante do próximo é a postura e a característica que garante a liberdade para tornar as relações mais saudáveis e agradáveis. São três os caminhos evolutivos para iniciar o autoamor [4]:

  • O da empatia, ser afetuoso, generoso, acolher, buscar, sentir, entender e ajudar ao próximo.
  • O da gratidão, pois pessoas que aplicam o perdão a si mesmas e ao outro costumam estar resolvidas com a emoção da raiva e possuem maior compreensão da vida.
  • E o da autenticidade, a coragem de sermos quem somos e permitirmos que a nossa melhor parte se expanda na direção do crescimento pessoal, do aprimoramento interior, sem medo de sermos amados ou não pelo que somos ou pelo que fazemos.

Ao aceitarmos quem somos damos o primeiro passo para crescer, sair do lugar e nos tornarmos uma pessoa melhor.

A vida começa a fluir e a nossa roda do carma individual começa a girar, a rodar para a frente, a gente progride e se liberta da repetição de ciclos sem progressão.

E como diz Marcos Valle na música Andança: “Só o amor me ensina onde vou chegar.”!


Ricardo Gruppioni


[1] João; 8:32

[2] Marcos; 5:34

[3] Amorosidade, a cura da ferida do abandono. Capítulo 6 - Autoria espiritual de Ermance Dufaux, psicografia de Wanderley de Oliveira - Editora Dufaux

[4] Ibidem

Amorosidade

You may also like