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Já me conheço – a armadilha sutil do autoconhecimento

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Relacionamento com a imagem, uma inocente forma de falta de autoamor

              É pouco provável que alguém se engaje em um movimento de autoconhecimento e aperfeiçoamento pessoal a partir de um contexto de vida confortável e pleno de realizações. O ser humano instintivamente tende ao confortável e ao econômico. Logo, o que costuma inclinar alguém à busca de si mesmo são situações de frustração, dor, revezes gerais e inconformações.

           Apesar de desconfortável, tal contexto é de fato o mais favorável ao processo de busca por uma razão simples: o insucesso na vida é a prova incontestável que a perspectiva pessoal falhou pelo menos em algum ponto. Configura-se, portanto, a frustração, como oportunidade de se assumir na vida uma postura mais humilde, condição prévia indispensável a um processo de autoconhecimento genuíno e por consequência proveitoso.

            Passada essa etapa inicial, é comum e esperada uma nova postura diante da vida, a partir de um igualmente novo paradigma. A partir das frustrações é desejável que se questione sobre a vida de uma forma mais ampla: “afinal, para que estou aqui? Para que minha vida serve?” E é assim, a partir de desilusões e ressignificações que a vida nos estimula a olhar para dentro antes das decisões sobre a vida "lá fora". Parece muito bom, não é mesmo? E é! Contudo, é necessária alguma cautela.

            Dedicado fielmente à busca de si mesmo, muitas vezes o indivíduo não se dá conta de que se analisa e se interpreta a partir da perspectiva do próprio ego, muitas vezes privando-se de uma percepção mais profunda de si mesmo. A partir daí inicia-se uma listagem infindável de qualidades e defeitos, como se a criatura se resumisse a esse olhar. Em seguida, conscientemente ou não, estabelece uma imagem de si mesmo que usualmente não corresponde à realidade e, inocentemente, passa a se relacionar com a existência a partir dessa imagem criada.

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- Mas Gustavo, eu me conheço! Sei que sou impaciente - disse ela com um tom de decepção, quase que como uma vítima.           

- Você fala como se fosse uma coisa.

- Como assim?

- Você não é uma coisa. Ninguém é.

- O que sou então?

- Processo!

- E qual a diferença?

- Coisas são definidas, estanques. Processos são contínuos e mutáveis. Quando você fala que é impaciente, isso me parece definido. Como se você o fosse em qualquer contexto, e pior, como se não houvesse nada a ser feito em relação a isso.

- Nossa, sou mesmo uma tapada!

- Olha aí você fazendo de novo! - rimos juntos. Não vou nem pensar sobre sua impaciência. Vamos usar sua suposta "tapadice” como modelo (adoro inventar umas palavras de vez em quando). Depois você usa para a impaciência ou pra qualquer outra coisa, combinado?

- Só você pra me fazer rir de desgraça. Vamos lá. - disse ela sorrindo e consentindo com a proposta.

- Você é sempre tapada? E essa tapadice, acontece sempre da mesma forma? Tem os mesmos gatilhos? Será possível alguém ser sempre a mesma coisa sendo que cada experiência, ínfima que seja, nos modifica perante a vida?

- Nossa, queria ver as coisas como você!

- Não queira! Você é você e eu sou eu. Se você quiser ver como eu, além de ser impossível a vida ainda vai perder o seu olhar, único, singular. Sugiro que procure ver como você!

- O que devo fazer?

- O primeiro passo que recomendo é jogar fora essa ideia de que você já se conhece. 

- Como assim? Tenho me dedicado a isso há anos!

- E é claro que não jogaremos fora esse trabalho. Mas aparentemente você tem se tratado não como um ser humano, dinâmico, mutável, cheio de incoerências e desafios, mas como um check list a ser resolvido, como se fosse uma pauta de reunião.

            Sempre que alguém me fala que já se conhece me divirto um pouco por dentro. Como já disse antes, prefiro levar essas coisas com leveza e bom humor que com a severidade lúgubre típica dos chatos.

            A armadilha do autoconhecimento é precisamente essa: uma desconexão da realidade a partir de uma relação inocente e excessiva com a imagem que se cria de si mesmo. Na perspectiva do filósofo francês Louis Lavelle essa relação com a vida a partir da imagem que se tem de si mesmo configura um tipo de narcisismo sutil e delicado porque não vem acompanhado da habitual soberba aparente do narcisista. [1] Contudo, há muita arrogância velada na fala de alguém que diz "já me conheço”. Afinal, quem eu acho que sou para dominar plenamente esse ser tão vasto, complexo e maravilhosamente contraditório que é o ser humano? E é “só isso” que sou! Um ser humano!

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Quatro dicas para não cair na armadilha sutil do autoconhecimento

           A primeira dica é uma recomendação para qualquer um que queira viver bem. Humildade não é se fazer como menor do que se é. Isso é tão orgulhoso quanto a soberba. A pessoa está desconectada da sua própria realidade quando se faz maior ou menor do que é. No fundo é a mesma postura. Ser humilde é saber o seu próprio tamanho e se relacionar com a vida a partir da sua realidade, ao invés de a partir de uma imagem de si mesmo.

            A segunda dica é perceber mais que interpretar. Quando analiso algo em mim, tendo a criar um modelo a partir da interpretação, e nesse processo sou necessariamente refém das minhas crenças, conhecimentos prévios, valores e outras limitações. Não que analisar seja ruim, mas o equilíbrio é fundamental. Muitas vezes tiro mais proveito a partir de uma simples observação de um fato que de uma análise complexa. Como no exemplo da moça acima, se me analiso como tapada, fim de papo. Mas, eventualmente, reajo à vida de uma forma "não-tapada”. Isso significa que naquele momento exato não sou tapado. E apenas vejo isso. É uma constatação da minha realidade, não uma ideia.

            A terceira dica é procurar o olhar de um terceiro. Como dito anteriormente, sou inexoravelmente refém de mim mesmo em relação a qualquer olhar que tenha sobre a vida. Sobre a vida e tudo que nela existe não é possível ter certezas, mas apenas pontos de vista. Muitas vezes o olhar crítico e amoroso de alguém que tem a coragem de ser sincero com você auxilia mais que muita dedicação à introspecção, parafraseando a ideia do psicologo C. G. Jung. Leve em conta o olhar de um cônjuge, familiar ou amigo que de fato ame você, queira seu bem e seja franco a ponto de não o bajular ou proteger. Ainda nesse contexto, um ponto importante: algumas situações exigem um olhar profissional. Seja humilde e busque ajuda.

            A quarta dica é por vezes a mais desafiadora, por incrível que pareça. Amar-se nas próprias imperfeições é rota segura para uma vida mais proveitosa. Afinal, se o Supremo Criador do Universo é de natureza amorosa e nessa base estabeleceu sua obra, onde será que chegaremos nos agredindo? Se na natureza tudo está em paz e evoluindo naturalmente apenas por respeito à própria natureza, onde chegaremos nos maltratando por não ser o que achamos que deveríamos ser, sem mesmo considerar que é o próprio ego que estabelece esse modelo a ser seguido, muitas vezes pautado em orgulho, vaidade e inconsciência? O ser humano é o único animal que sofre por ser o que é. Meio estranho, não? Aprendendo a nos tratar com carinho e responsabilidade amorosa trilharemos mais firmes e leves nessa jornada infinita que é a vida. Aprenda a rir de si mesmo e a não se levar tão a sério.

Gustavo Cury


[1] O erro de Narciso - Louis Lavelle - Editora É Realizações - 2019

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