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A Borboleta-Cavaleiro Branco

A-Borboleta-Cavaleiro-Branco

- Meu namoro está sob análise.

- Me conta por favor.

- Nos encontramos depois de sair de relacionamentos muito difíceis. No início foi muito bom. Nós dois sabíamos o que queríamos de uma relação, mas com o tempo fomos nos perdendo, nos desconectando.

- O que houve?

- Somos muito diferentes. Pensamos de forma muito diversa sobre espiritualidade, política, assuntos comuns.

- Diferenças não são defeitos (lembrei do título da obra da querida Ermance). Divergências podem ser complementares.

- Concordo muito com isso! O problema é que ele não vê assim, e não me respeita. É intransigente, desrespeitoso com minhas opiniões. Ou se irrita, ou me ignora. Às vezes é sarcástico com meus pontos de vista.

                Há muito tempo não via uma pessoa tão sensata, madura e espiritualizada. No casamento a que se referira, passara por uma depressão, doença que, quando bem vivida e tratada, serve à alma como uma crisálida serve a um animal metamorfo, e foi o que acontecera com a jovem. Percebi que ela estava transformada pelo sofrimento anterior, e íntegra na relação vigente, realmente disposta a fazer dar certo. Mas como sempre, o problema era a reciprocidade. Muitos não sabem receber esse amor e agridem quando são amados. Nos momentos que se seguiram, ouvi uma série de relatos que confirmaram a suspeita de se tratar de uma relação abusiva. E como é comum em situações como essa, quem sofre não percebe o que está acontecendo.

- E por que segue com ele?

- Tenho para mim que numa relação de casal temos de tentar ao máximo, até as últimas forças. Apesar de tudo ainda o amo. E foi assim que fiz no meu casamento.  Tentei de tudo até perceber que o amor de homem e mulher não existia mais.

- Infelizmente amor não basta, ao contrário do que se acredita.

- Não?

- É sempre difícil falar isso para uma alma amorosa, mas não. É preciso alinhamento de propósito e equilíbrio entre o doar e o receber. É isso que garante a funcionalidade da relação. Amor é o motivo. Me parece que você se doa demais, e que quer ajudar alguém que não quer sair do lugar.

- Acho que fiz isso no meu casamento também.

- E por que você quer viver salvando a vida de todo mundo?

- Achei que isso fosse bom.

- Ninguém pode salvar ninguém. Podemos, no máximo, influenciar. Contudo, o limite da eficácia da influência é a receptividade do outro. Parece que seu namorado não está interessado em ouvir. Persistir nisso indica alguma carência sua. Já ouviu falar na Síndrome do Cavaleiro Branco?

Também chamada de Complexo do Salvador, esse quadro não consta nas referências psiquiátricas como uma psicopatologia. Trata-se, num entendimento simples e objetivo, de uma compulsão muitas vezes irresistível de ajudar e resolver a vida dos outros. Com certeza pode gerar benefícios como, por exemplo, quando é voltada a algum assistencialismo. Mas além de potencialmente desajudar, pode até mesmo gerar danos e atraso ao progresso do outro.

Estar numa relação para salvar o outro parece bom, mas não é. Absorver pelo outro as consequências do que ele é, significa remover dele o estímulo para crescer. É diferente de ajudar. A ajuda promove crescimento. Muitas vezes ajudar é não fazer nada e esperar com amor. Outras tantas, é se afastar para permitir que o outro cresça. Não estamos aqui para sermos salvadores de ninguém. Isso é pretensioso.

E esse comportamento indica uma falta e normalmente acomete pessoas que sofreram algum tipo de abandono. A partir de uma expectativa muitas vezes inconsciente de receber compreensão, acolhimento e amor, essas pessoas se anulam e se martirizam, sofrendo duplamente pelo desgaste de ajudar, e a frustração de não ser correspondido.

A seguir, algumas dicas para refletir se você pode estar nessa situação:

  • Você considera que tem muita empatia, a ponto de ser perturbador, em relação à dor do outro?
  • Tem dificuldades para se afastar de relacionamentos tóxicos, por medo de ficar sozinho?
  • Faz tudo pelo outro por medo de ser rejeitado, traído ou abandonado?
  • Apresenta baixa tolerância a frustrações?
  • Não sente que as outras pessoas te compreendem, ou são suficientemente empáticas com você como você é com elas?
  • Viveu ou vive relações com pessoas abusivas achando que resolveria isso para elas?

É claro que a proposta é de apenas fomentar reflexões, e não definir algum diagnóstico. Superar essas questões não costuma ser fácil.  No entanto, uma questão é muito clara. Nem tudo deve ser tolerado e, abandonar-se para dar conta do outro, sendo que nem ele mesmo quer fazer isso, é um ato de falta de amor próprio muito grande. Costuma ser assim: me abandono porque não consigo me amar como sou, então crio uma imagem de um salvador na expectativa de que o outro me olhe e me reconheça. Um abusador, que tipicamente é narcisista, não vai ligar para você. Não verdadeiramente. Não antes de ser tudo do jeito dele. Aliás, ninguém vai respeitá-la se isso não partir de uma relação sua com você mesmo. Não haverá relação saudável enquanto a pessoa certa da sua vida não for você mesmo. E isso exige amar-se e acolher-se tal como se é para poder crescer.

Ao fim da conversa, disse à minha cliente:

- Ele pode até mudar, mas resistente como está, posso dizer que as perspectivas não são boas. No mínimo tende a demorar bastante.

- No fundo não acredito que ele irá mudar. Gustavo, eu quero viver! Quero alguém que tenha mais sintonia comigo. Alguém que me ajude a crescer e a quem possa ajudar também.

Diante desse desejo totalmente excelente, e ciente de que falava com uma pessoa já amadurecida pelo sofrimento, apesar da jovialidade, encerrei a conversa com uma imagem:

- Ninguém tem o direito de apagar sua luz. Você já é borboleta. A gente arrasta na fase de lagarta. Se transmuta na fase de casulo. Você já pode voar. Infelizmente ele ainda arrasta comendo capim. Voa borboleta!

*Para preservar a intimidade das pessoas, todos os clientes citados em meus artigos são fictícios e construídos a partir da organização de relatos reais que possuam coesão entre si.


Gustavo Cury

Gustavo Cury
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