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A Incompletude da Completude

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- Sei que não posso reclamar...

- Por que não?

- Existem muitas pessoas com problemas muito piores que os meus. Na verdade, nem tenho um problema!

- Por que está aqui então?

- Fico constrangida, mas não era para eu estar assim. Pensando bem, minha vida é ótima! Tenho tudo. Minha família tem dinheiro para umas cinco gerações. Me dá vergonha pensar que tem gente passando fome e eu aqui reclamando.

- Em primeiro lugar, você não está aqui apenas reclamando. Está doente. Em segundo lugar, com certeza há algo de positivo nessa empatia de olhar para o lugar do outro quando se questiona sobre o próprio sofrimento, no entanto, toda dor é inerente a quem sofre, dentro de suas próprias condições internas e externas. Não há uma fórmula que funcione para todo ser humano. A subjetividade é praticamente indecifrável, em totalidade.

- Como assim, Gustavo? Às vezes você fala de um jeito tão complicado.

- Verdade – sorri concordando – sinto muito. Algumas coisas complicadas para a maioria das pessoas são muitos simples para mim. Acabo me esquecendo. Em contrapartida, muitas coisas simples para os outros são incompreensíveis para mim. Sou praticamente nulo para trabalhar com números, por exemplo!

- Sério? Te acho tão inteligente!

- Para algumas coisas sim. Para outras sou como uma porta! – sorrimos juntos – Viu só como cada um é cada um?

- Verdade...

- Procure olhar para o seu sofrimento com respeito. Sem comparações ou julgamentos. Ele é seu! Sua dor é sua responsabilidade. Comparar-se com os outros dessa forma pode ser fuga.

- Como assim?

- Pensa só! Se você se sente mal e ridiculariza seu sofrimento, como isso costuma te afetar?

- Me sinto péssima! Ridícula! Incapaz!

- E o que se espera de um incapaz senão a incapacidade? Tratar-se assim costuma significar perpetuar o problema que gera o sofrimento.

- Como saio disso?

- Vamos descobrir juntos. Mas o primeiro passo é sempre se olhar sem julgamentos, em regime de honestidade emocional e responsabilidade pessoal.

- Está certo, Gustavo. Mas ainda não consigo saber o que fazer. Tenho dinheiro, conforto, um marido ótimo, filhos lindos, já conheci muitos lugares no mundo. O que me falta?

- Talvez o que te falte seja a falta.

Com muita frequência, as pessoas me dizem estar buscando plenitude. Muitas vezes com o nome de perfeição, outras tantas, como prosperidade. Algumas querem utopias, outras um pleno específico, por exemplo, quando querem uma nova formação, ou apenas um bumbum mais bonito. Com a experiência fui compreendendo que, quanto mais cheio, mais vazio... E quanto mais vazio, mais se quer ficar cheio. Onde chegarei então se já estiver cheio? Talvez um dos segredinhos da vida seja ficar um pouquinho vazio.

- E a tal da perfeição?

- O que tem ela?

- Você não é espírita? O objetivo não é ser perfeito?

- Sim! Ao mesmo tempo isso é uma impossibilidade!

- Nossa Gustavo, às vezes é difícil te acompanhar! Como posso ter por objetivo algo impossível?

- Bom, aprendi que a palavra perfeição, no Novo Testamento, tem o sentido de integridade, para início de conversa. Mesmo assim não é por aí que a gente precisa conversar sobre isso. A dita perfeição é um direcionamento. A própria espiritualidade diz que é impossível alcançá-la numa só encarnação. O foco deve estar no processo de se tornar perfeito, ou o aperfeiçoamento.

- Nossa, nunca tinha pensado nisso.

- Também sofri um bocado antes de descobrir que estava como um cão correndo atrás do rabo. Ora me sentindo miserável, por ser insuficiente, ora uma sumidade espiritual por ter feito alguma coisa legal. Mas quase sempre desconectado das questões mais importantes do meu processo evolutivo.

- Que seriam...?

- Tudo que nos afeta no simples e não é amoroso. A convivência, o dia a dia, os relacionamentos. Entendo, pelo menos por agora, que o caminho deve ser por aí. E a perfeição a gente deixa um pouco para lá.

Me lembrei de um poema de Mário Quintana, chamado “Das Utopias”, e li para ela:


Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Mario Quintana


Emocionada, ela disse:

- Compreendi sobre isso. Mas ainda estou pensando no que me disse. Talvez o que me falte seja a falta.

- O ser humano é assim mesmo. Tendemos ao que é mais confortável e econômico. É preciso algo que nos desestabilize para que a gente tenha motivo para crescer.

- Por isso que quem tem tudo fica deprimido como eu?

- Bom, isso não é uma regra. Nem todo mundo que tem muitas coisas fica deprimido, nem todo deprimido vive nessas condições. Mas gostei da leitura que fez. Ela serve bem para você.

- Já estou eu aqui me comparando de novo – e sorrimos juntos novamente.

- Que bom que já está percebendo sozinha.

- O que faço então?

- Olhe para sua doença. Procure compreender o que ela quer te mostrar. Como disse em outra oportunidade, a depressão bem vivida é como que um casulo. A gente entra arrastando, mas pode sair voando.

- Já sei. Ao invés de me sentir mal por ter mais, vou usar do que tenho para ajudar.

- Ótima ideia!

- Vai dar certo?

- Não sei! Mas espero que sim. E se não der a gente pensa em outra coisa. Só não pare com os remédios. Só o médico pode te autorizar nesse sentido.

                Sempre me emociono vendo alguém voltar a se sentir vivo. Me lembro das minhas próprias angústias e inquietações, e como o movimento sempre me ajuda a sair dessas crises. Pensei na falta da falta. Não há motivo para se movimentar se não falta nada. Ao fim da sessão, agradeci em prece por não ter tudo, não saber tudo e não dar conta de tudo. Sempre haverá muito que ser feito. Ao terminar a oração, Pai João me lembrou de uma frase de Einstein, me soprando no ouvido com alegria.

“Viver é como andar de bicicleta. Para se manter o equilíbrio é necessário o movimento.”

*Para preservar a intimidade das pessoas, todos os clientes citados em meus artigos são fictícios e construídos a partir da organização de relatos reais que possuam coesão entre si.


Gustavo Cury

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