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Continuidade da vida

vida Maria José

Por algum motivo que ele desconhecia, naquela manhã, ela acordou bem mais disposto, como há muito tempo não se sentia. Calçou os chinelos, saiu pela porta aberta do quarto e viu a enfermeira Fernanda no posto de enfermagem, em frente a um computador, digitando. Passou por ela e deu um sonoro bom dia, mas ela estava tão concentrada que nem respondeu.

O doutor Rodrigo, médico que supervisionava seu tratamento vinha pelo largo corredor conversando com outro médico, tão compenetrado, que nem se virou para cumprimentá-lo. Ele preferiu não chamar o médico pelo nome, como sempre fazia, pra não atrapalhar a conversa, pois andavam pelo corredor verificando uns exames com cara de muito preocupados.

A manhã estava com céu aberto e o dia prometia. Ele, de longe, tinha acordado muito melhor. Nada de enjoo ou vômitos, diarreia ou fadiga. Na verdade, ele estava tão bem que queria sair correndo e pulando pelos corredores do hospital. Melhor não, pensou.

Naquela manhã parecia que ninguém o via. Aos 19 anos ele já tinha se acostumado aos olhares de admiração das pessoas. Alto, forte, bonito e extremamente simpático, ele não tinha dificuldade em se comunicar e cativar as pessoas. Mesmo estando bem mais magro, careca e pálido, ele chamava a atenção ao passar pelos corredores do hospital quando dava suas “caminhadas” para relaxar a tensão e diminuir a angústia que esmagava seu peito.

O tratamento de quimioterapia daquela semana o deixou bem debilitado, tanto que teve que ser internado. Ele tinha que fazer muita força para manter o humor e se fazer de forte, principalmente perto dos pais e da irmã mais nova. Já estava bem desgastado pelo tratamento, cansado de lutar para viver.

Tudo aconteceu muito rapidamente. Começou com dores fortes na cabeça há alguns meses e então, do nada, um diagnóstico terrível: câncer no cérebro. No início parecia um lance surreal, que estava acontecendo com outra pessoa, nada a ver com a vida que se abria todinha diante dele, só esperando para ele realizar seus sonhos.

Só que não. Pânico na família, perguntas para as quais as respostas demoravam ou não tinham muitas certezas, sigilo na escola, saída das aulas, afastamento dos colegas e toda a reviravolta que sua vida sofreu. Literalmente, ele estava perdido.

E aí as perguntas começaram a aparecer. Devagarinho. Uma a uma foram se esgueirando entre um exame e outro, entre um diagnostico ruim e outro pior. À medida que a porta da esperança ia se fechando mais elas apareciam. E ele sem coragem pra verbalizar nenhuma : O que vai acontecer comigo? Vou deixar de existir? Se não, pra onde vou? O que vou ser? Alma penada? Mas o que é uma alma penada? Será que sou bom o suficiente para ir para o céu? Tem céu mesmo? Se não tem, o que me espera?

Tinha dias que a barra ficava mais leve e ele até se esquecia delas. Elas davam uma sumida e ele ficava sempre grato. Mas toda vez que era internado e saia para caminhar no corredor elas logo apareciam... Ultimamente com mais frequência.

Caminhou até a área do grande jardim interno, onde muitas vezes se sentara com seus familiares e amigos no horário de visitas. Era o lugar preferido dos pacientes. Ali eles meio que esqueciam um pouco das doenças que marcavam suas vidas. Resgatavam momentos de alegria.

Naquela hora não havia ninguém lá e ele achou isso muito bom. Ia ficar mais à vontade. Sentou-se no banco, virou a cara pra cima, sentiu o sol queimando a pele de forma gostosa e respirou profundamente.

Era tão bom estar vivo! Por que ele não podia ter uma chance? Por que tinha que morrer daquela doença horrorosa? Por que deixar seus pais, sua irmã e todos que ele amava? Ele era tão novo!  Gente nova não devia morrer! Não está certo isso. 

Ao ter esses pensamentos ele começou a se sentir mal. Os sintomas começaram a reaparecer e ele teve uma leve tontura. Olhou em volta e viu que uma jovem enfermeira caminhava diretamente para ele. Devia ser nova, pois ele nunca a tinha visto por ali.

Com um suave sorriso ela falou:

_Bom dia, João!

_Bom dia!

-Posso me sentar com você?

_Claro!

_Meu nome é Ermance. Tudo bem?

_Estava, né. Até agora a pouco, quando comecei a passar mal outra vez.

_É. Deu para notar a sua mudança vibratória. Por isso eu vim. Sou a instrutora responsável pelo seu caso.

_Só achei que você iria querer curtir a beleza revigorante do jardim por mais um tempo, mas parece que eu me enganei.

_Mudança vibratória? O que você quer dizer?

_Você chegou até aqui se sentindo muito bem, não foi? Praticamente sem os sintomas que te acompanharam nos últimos tempos. - Mas ao começar a se questionar sobre as “perdas” que estava sofrendo, seu padrão mental baixou e você começou a passar mal outra vez.

_Por que você fez aspas com os dedos quando falou das “perdas”? Por acaso elas não são reais e evidentes?

_Isso depende do ponto de vista de quem vê os acontecimentos.

_E morrer de um câncer violento aos 19 anos, tendo uma vida toda pela frente, não é uma perda inquestionável, independente do ponto de vista de quem quer que seja?

_Nem sempre!

_Como assim? Você deve estar despreparada para ser instrutora de alguém... Seja lá instrutora do que seja. Vejo que é tão jovem quanto eu.

_Sou uma veterana! Trabalho como Instrutora de Readaptação há mais de 20 anos.

_Mas você ainda nem tem cara de quem tem essa idade!

_Para você ver como as coisas por aqui são boas. Sempre que trabalho com jovens escolho essa aparência. Facilita meu trabalho.

_Seu trabalho?

_Sim, como disse sou Instrutora de Readaptação e ao perceber a queda do seu padrão mental achei melhor me aproximar.

_Queda de padrão mental? O que é isso? O que tem a ver comigo e minha doença?

_Calma! Uma pergunta de cada vez! Então vamos lá!

_Bom, ao ficar se perguntando os “por quês” da sua doença, da falta de tratamento e das suas perdas, sua mente passou a vibrar em uma faixa de pessimismo e revolta, atraindo para você todos os sintomas dos quais você já estava livre essa manhã. A mudança de pensamentos de um estado bom para um com sofrimento é o que chamamos de queda do padrão mental. Entendeu?

_Mais ou menos. O que você quer dizer é que se eu estou bem e tranquilo tenho um padrão mental melhor e, quando não estou, entro em um padrão pior. É isso!

_Aprende rápido, em?

_Mas o que isso tem a ver com a volta dos sintomas? E por que eu acordei me sentindo tão bem? E por que ...

_Muita calma nessa hora! Respira! Isso.

_Antes de continuar nossa conversa preciso te apresentar O Desafio. Pode ser?

_E eu lá estou em condições de aceitar desafio? Olha meu estado. É ruim, em?

_Sei que seu espírito desportivo é alto. Não é à toa que você é o capitão do time de basquete da sua escola.

_Mas como você sabe disso?  Essa informação não está no meu relatório clínico daqui do hospital.

_Tenho um relatório minucioso a seu respeito, e não é só dessa atual. Mas falamos disso depois. Vamos ao que interessa. Quero ver você vencer O Maior Desafio dessa sua vida.

João olhou para aquela jovem e alegre enfermeira. Por alguma razão ele se sentia muito bem em sua companhia. Inexplicavelmente, sentia que podia confiar nela.

Será que era um tratamento novo para paciente terminais? Será que foi o doutor Rodrigo que solicitou aquela supervisão psicológica para que ele ficasse um pouco melhor? Seus pais certamente estariam de acordo, não é?

Como se lesse seus pensamentos Ermance falou:

_João, sossegue sua mente. Ela está tagarelando demais e tirando sua atenção do que é mais importante agora.  

_E o que seria?

_Você vencer O Maior Desafio dessa sua vida.

_Ah! O Desafio. Muito bem. Parece que o tratamento aqui do hospital vai além do que eu poderia imaginar. Mas se você está aqui isso significa que tudo ocorre dentro do programado.

_E põe programado nisso!

_Então vamos ao Maior Desafio da minha vida.

_Me acompanhe.

João e Ermance se levantaram do banco, caminharam tranquilamente pelo extenso jardim e entraram de volta no corredor. Foram andando em silencio por algum tempo. Ao se aproximarem do setor no qual o quarto de João estava ele percebeu uma movimentação fora do comum no dia a dia. No corredor mais adiante, bem em frente à porta do seu quarto havia uma equipe médica conversando baixo e as enfermeiras do setor entravam e saiam em absoluto silêncio.

João olhou para Ermance sem entender o que estava acontecendo. Ela estava serena e fez um sinal para que ele entrasse no quarto.

A primeira coisa que ele viu foi uma pessoa deitada na cama que ele havia ocupado, coberta dos pés à cabeça com um lençol. Perguntou:

_Colocaram outro paciente no quarto que eu estava usando?

_Não – a resposta veio calma.

_Então quem é que está deitado ali na minha cama e coberto desse jeito?

_Ali está um recurso temporário que lhe foi permitido usar por determinado tempo e para um objetivo específico.

_O que você quer dizer com isso?

_Que ali está, digamos assim, uma vestimenta que você usou até hoje e da qual não precisa mais.

_Não estou entendendo nada.

_Vou te ajudar a entender. Sabe quando você cresce e a roupa não te serve mais? Você não cabe mais nela, certo? E aí você a dispensa de seu uso pessoal. Então, foi isso que aconteceu.

_Estamos falando de roupa?

_De certa forma, sim.

_Uma roupa que eu não vou usar mais porque cresci?

_Simbolicamente sim. Você está deixando uma veste física que te serviu até hoje pela manhã e agora não precisa mais dela.

_Veste física? O que é isso?

_Um corpo físico.

João olhou para Ermance de boca aberta.

Será que ele estava entendendo o que ela havia dito? Será que ela havia dito que ali estava deitado o seu corpo? Como assim? – ele se perguntou passando a mão pela cabeça, pelo tórax e barriga, sentindo a si mesmo.

O corpo dele estava ali com ele, de pé e não deitado na cama e coberto por um lençol. Lançou um olhar indagativo que logo foi respondido por Ermance:

_A vida continua, João. O que há depois da matéria é a plena continuidade dela. Só que em planos diferentes.  Bem-vindo a sua pátria de origem!

_Então eu morri? Mas como posso ter morrido se estou aqui falando com você, andando e sentindo meu corpo normalmente?

_Sim, você morreu hoje bem cedo, de forma tranquila, tanto que nem percebeu. Isso é maravilhoso. Você não faz ideia de como casos iguais ao seu são raros.

_Maravilhoso? Como o fato de eu ter morrido pode ser maravilhoso? Você já parou para pensar nas consequências? Na minha família e amigos? E em mim?

Assim que disse essas palavras, profundo mal-estar envolveu João. Parecia que ele estava em uma crise aguda a sua doença. Suando frio, com muitas dores na cabeça e uma sensação de fraqueza tão forte que ele teve a sensação de que ia desmaiar.

Ermance o pegou pelos ombros e o encaminhou para uma poltrona do quarto.

Em profundo silencio e concentração, espalmou as mãos sobre a testa e coração dele e transmitiu energias calmantes e revigorantes a fim de que ele ficasse bem. Com vontade firme e intenção de ajuda ela doou energias que foram, aos poucos, reequilibrando o campo mental e emocional de João.

Após alguns minutos desse aporte energético, João começou a sentir um pouco melhor, mas ainda distante de se sentir bem e lúcido o suficiente para entender o que estava acontecendo.

Ermance falou decidida:

_Agora é hora de só pensarmos em você. Deixe aos que ficam na vida física a oportunidade de viverem as experiencias de desapego que necessitam e de fortalecimento da fé que este momento lhes reserva.

_Mantenha a calma que é tudo o que você precisa para vencer o desafio de entender que a morte é simples continuidade da vida. Vida que precisa ser aceita nesse momento, uma vez que a que te aguarda aqui no plano astral

_Mas vamos deixar as explicações mais amplas para depois. Agora você precisa descansar.