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CULPA, INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO

culpa

“Nossa!”, vocês devem ter pensado, “Como assim, libertação?”

É! A culpa pode ser o alarme de incêndio que nos leva a sair do prédio em chamas mesmo quando não enxergamos a fumaça que nos sufocaria.


MAS, NÃO É A CULPA QUE NOS SUFOCA?


Bem, sei que vocês também devem estar pensando, “é quando temos culpa que nos sentimos mais sufocados, quase sem ar, diante de tantas batalhas interiores que nos atormentam!”

Claro que isso acontece e, quando estamos neste estado emocional, precisamos muito aprender a lidar com as nossas emoções e sentimentos e, por vezes, tenho que afirmar, eles estão tão desalinhados que a busca de uma ajuda profissional terá de ser o caminho a ser seguido.


EMOÇÕES E SENTIMENTOS: REFLEXO DE QUEM SOMOS


Acho que não há dúvidas de que as nossas emoções e sentimentos refletem quem somos. A cada ocasião em que somos chamados a reagir diante de uma circunstância vivenciada, surge em nós uma emoção boa ou não tão boa. Desta, vem o sentimento que, por sua vez, pode gerar outras emoções e outros sentimentos, cada um deles segundo as nossas vivências.

Bem, a cada circunstância reagiremos conforme nossas verdades, nossos valores e, por isso, sem pestanejar, posso afirmar que a emoção que surge, nestes momentos, é ainda o espelho de nossa alma.

Por exemplo, se em um banco, depois de horas em pé, alguém furar a fila, claro que haverá uma reação geral de todos que estão nela. Todos, sem exceção. Dificilmente, alguém não sentirá nada, mesmo que seja uma reação positiva com a compreensão da situação vivenciada. Mas, como não são essas reações que normalmente nos causam culpa, não farei menção delas neste artigo.

Continuando, posteriormente à primeira emoção, cada um de nós terá um sentimento criado a partir dela. Vamos dar alguns exemplos:

  • do desgostar à irritação;
  • da raiva ao ódio;
  • da surpresa à decepção;
  • e outros tantos...

Alguém se identificou com algum deles?

O ponto é que, estes sentimentos são os que, vida após vida, fomos nos condicionando a tê-los, após aquelas emoções. E, segundo a nossa vontade, eles podem não ser temporários como as emoções que se esvaem quando não as alimentamos e as transformamos em sentimentos.

Para entenderem melhor, vamos pegar o exemplo da fila do banco de novo. Alguém fura a fila e nossa primeira reação é ficarmos indignados. Essa emoção será sentida em um rompante, sem freios. A partir daí, cabe a nós o que queremos fazer com ela. Se eu a alimentar com pensamentos do tipo: “esta pessoa não me respeita”; “quem ela pensa que é?”; e assim sucessivamente, alimentarei a indignação e construirei outro sentimento, muito mais intenso e sufocante.  

Então, por exemplo, quando eu me enraiveço com algo, se não tomar cuidado, poderei atingir o patamar do ódio rápida e permanentemente. A emoção eu vou sentir automaticamente, mas o que faço com o sentimento advindo dela, caberá a mim.


MAS, E A CULPA?


Calma, chegaremos nela.

Diante dessas emoções e sentimentos, onde as primeiras não domamos, mas as segundas sim, poderemos tomar atitudes que nos levarão a outros patamares emocionais.

Se voltarmos para o exemplo da pessoa que furou a fila, após uma reação despropositada de nossa parte, pode ser que venhamos a descobrir que ela já havia estado ali e que, por faltar um documento precisou sair, mas o próprio caixa do banco pediu para que ela, ao retornar, não entrasse na fila de novo, e sim o aguardasse desocupar. Os primeiros à sua frente sabiam disso, mas você não tinha ouvido. Após fazer um escândalo, você é esclarecido e fica muito envergonhado e arrependido com tudo o que disse.

Se parássemos no arrependimento, onde podemos corrigir os nossos erros através da retratação e do autoperdão, tudo ficaria bem, mas, não são todos que compreendem que poderemos agir diferente em uma próxima vez, sem a culpa.

 

ENTÃO, COMO A CULPA PODE NOS LIBERTAR?


Vamos por partes.

A culpa é um esboço de quais são as nossas crenças, valores e princípios de vida que, por já termos caminhado um pouco além, encontram-se ultrapassados, servindo como empecilho para um caminhar mais livre.

Nos dias de hoje, temos muitas emoções que provocam sentimentos que já não são mais hábeis em nos fazer enfrentar as circunstâncias que estamos vivendo.

Por exemplo, já entendemos que o diálogo é a melhor opção para resolvermos uma situação desagradável, e não a irritação que só levantará paredes entre as partes envolvidas.  

O problema é que, por precisarmos compreender melhor esse entendimento, reagimos ainda com irritação e, ao enxergarmos o estrago que fizemos, a culpa virá sem freios porque ela é uma emoção. Por ainda não acreditarmos que, com o mero arrependimento faremos mudanças significativas em nosso proceder, bem como não nos enxergarmos merecedores de perdão, temos na culpa uma ferramenta de autolapidação.

Agora fica mais fácil compreender o primeiro exemplo que trouxe a vocês porque, para que possamos sair de um prédio em chamas (nossa ignorância), onde a
fumaça (arrependimento) já está nos nossos calcanhares, mas ainda não a percebemos, só mesmo acionando o alarme de incêndio (culpa) para não deixarmos o fogo nos alcançar."


A CULPA COMO IMPULSIONADORA DE MUDANÇAS NA NOSSA VIDA


Não gostamos de sentir culpa, mas se a enxergamos como uma ferramenta eficaz para as nossas mudanças (mesmo que inconscientemente), devemos adquirir uma educação emocional e buscar um autoconhecimento para melhor aproveitá-la.

Se estamos usando de nossas emoções para vivenciarmos sentimentos intensos e sem raciocínio, com certeza, em algum momento, as consequências de nossas ações nos atingirão.

Quando isso acontecer, nosso ser reagirá porque não deseja persistir no erro. Ele nos mandará sinais, e um deles é a culpa que, sendo uma emoção construída por nós, vida após vida, tem como reflexo inúmeras sensações desagradáveis, tais como um mal-estar pessoal, remorso, angústia...

Como tudo o que nos incomoda nos faz parar e pensar o caminho que estamos trilhando, essas sensações nos farão perceber que algo precisa ser mudado e esse algo somos nós mesmos!


VOCÊ CULPARIA O ALARME OU O FOGO PELOS PREJUÍZOS CAUSADOS?


Como foi dito, a culpa é, dentro de um processo evolutivo, uma ferramenta que a criamos e usamos para um “bem pessoal maior”. Enquanto acreditarmos que o outro não vai mudar sem a culpa estampada em seu rosto, nós também continuaremos a exigir de nós tal emoção para impulsionarmos as nossas mudanças.

Sendo assim, enquanto não mudarmos essa crença, continuaremos a usá-la como degrau eficaz para o nosso crescimento.

Mas, como para todo tipo de trabalho, uma ferramenta mais adequada deverá ser usada, é imprescindível aprendermos a lidar com as nossas culpas, porque, elas podem ser tóxicas, seja para o nosso organismo físico, seja para a nossa estrutura energética, e, da mesma forma que o alarme de incêndio nos alerta para sairmos do prédio em chamas o quanto antes, se não entendermos a sua verdadeira função, podemos nos desesperar e acreditar que somente saltando da janela, seja de qual andar for, é que conseguiremos sobreviver ao fogo.


POR ISSO...


Se ainda temos na culpa o alicerce para mudanças significativas no nosso viver, entendemo-la como um instrumento libertador, porque ela nos dá a oportunidade de enxergarmos aquilo que já não estamos mais gostando de pensar, sentir ou agir, nos ajudando a traçar um novo caminho a ser percorrido.

Porém, não nos esqueçamos jamais que não precisamos sofrer para crescer.

Assim, poderemos abandonar a culpa, quando tivermos condições para isso, e abraçarmos outros tantos fatores já conquistados por nós e que nos levarão a percorrer o mesmo caminho evolutivo, sem tanto sofrimento.

Culpa, como instrumento libertador? Sim, enquanto entendermos que ela é a nossa única boia de salvação.

Adriana Machado
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