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Amar-se e se (des)escravizar

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Uma possibilidade de se amar e de se desprender do que lhe escraviza

Nesses últimos anos, tenho vivenciado uma sequência de experiências, onde pessoas de minhas relações mais íntimas tiveram que estar boa parte de seus dias em ambientes clínicos e hospitalares, lugares que nos levam a repensar o significado da vida.

AS PESSOAS E SUAS REAÇÕES

Quantas dores, quantas desilusões vemos nos olhares e faces daqueles que se encontram internados, ou passando por tratamentos dolorosos meses sem fim!? Sim, muitas dores, muitas desilusões, mas... também vemos muita esperança guardada em seus corações para que tudo dê muito certo e para que toda aquela avalanche de insegurança acabe.

Nossa! Como vale a pena nos depararmos com pacientes que tiveram retomada a sua felicidade por terem recebido um prognóstico positivo sobre o seu quadro clínico.

Sejam boas ou não tão boas, tais condições podem ser o início de uma nova vida, com novas formas de enxergar o grande presente que nos é dado por Deus: a nossa existência!

OBREIROS DA SAÚDE

Se estamos falando dos que “visitam” os hospitais repetidas vezes ou esporadicamente, o que dizer de quem trabalha nesta área?

Se lá encontramos pessoas insensíveis às nossas dores, também encontramos aquelas que nos querem bem até pelo olhar. São pessoas que o tempo inteiro se veem frente aos piores momentos da vida de alguém, e escolhem doar o seu melhor para minimizar as dores daqueles que muito dependem delas para encontrarem a sua cura. Como elas fazem diferença naquele momento em que todos, pacientes e familiares, parecem estar em um abismo, sem tempo marcado para sair de lá.

Mas como tudo na vida, se eles ajudam, também podem ser ajudados. Esta atividade por eles abraçada, pode levá-los a um grau de reflexão intensa porque, se eles se colocarem abertos para enxergar o que se passa ao seu redor, poderão aprender com a dor do outro, sem precisar, talvez, vivê-la em suas próprias fibras.

ESCOLA QUE ENSINA

Bem, seja pelo paciente, seja por seus familiares, seja pelos próprios trabalhadores da saúde, esses ambientes são escolas preciosas que podem levar-lhes a um bem pensar e a um bom comportamento em prol de si mesmos.

 

Como já foi dito sabiamente por Chico Xavier: “as paredes de um hospital já ouviram preces mais honestas do que as de uma igreja.”, porque ali, onde vivenciamos dores profundas, nosso clamor também o é. Nossa fé se intensifica, nossa comunicação com Deus se estreita. Pela dor, nos fazemos mais crentes do que nunca. Vendo a dor alheia, podemos nos conscientizar da nossa importância na nossa vida, na vida do outro e, com certeza, fazer alguma diferença.

ENFRENTAMENTO COLETIVO DAS DIFICULDADES

Imaginem-se perdidos numa selva? Enquanto é dia, acredito que as emoções poderiam estar mais alinhadas, mas, chegará a noite, onde tudo parece mais assustador, onde nossa imaginação nos prega peças e cada barulho se torna um animal selvagem que vem nos devorar. Daí, faz uma grande diferença estarmos sós ou acompanhados.

Como é maravilhoso perceber que podemos contar com alguém nesta travessia pela selva inexplorada. Agora, se é bom estarmos com amigos, imagina se, dentre eles, tivéssemos um guia para nos tirar de lá?

Quando estamos doentes, a presença, não somente dos nossos familiares e amigos, mas também desses bons profissionais da saúde, obreiros do bem, nos acalenta e nos dá esperança de sairmos vivos desta aventura. Aquele animal selvagem que nos atormenta minuto a minuto, através dos pensamentos mórbidos que nos preenchem a mente e atormentam o nosso emocional, as dores físicas que não nos deixam esquecer que algo não está certo conosco, não nos dominará, porque a nossa fé será a nossa bússola orientadora.

DOENÇA X ESSÊNCIA DIVINA

Ao nos vermos acolhidos, percebemos que ainda somos pessoas de valor; que ainda merecemos toda a consideração dos que nos cercam porque, apesar de doentes, ainda somos bons filhos de Deus.

Fui dramática nesta assertiva?! Não, não fui, porque isso nos passa pela cabeça.

Vamos nos lembrar que, quando nos vemos doentes, algumas questões nos chegam à mente:

  • “Deus, por que comigo?”
  • “Eu não mereço estar doente!”,
  • “Por que isso está acontecendo?”
  • “O que eu fiz para ser punido com essa doença tão cruel?”
  • Dentre outras

Somos seres que, por mais que afirmemos não aceitar ou não acreditar no Pai Criador, estamos a Ele ligados pelo nosso DNA Divino. E, por milênios, fomos educados a acreditar erroneamente que Ele, quando não satisfeito com as nossas ações, nos punia, individual ou coletivamente.

Infelizmente, se assim era, ainda não deixou de sê-lo. Nosso consciente coletivo ainda é dominado por esta crença, e quando nos vemos doentes, ou vivendo uma vida pobre, miserável, por exemplo, nos julgamos menores (e ao próximo também), acreditando que toda essa vivência se dá porque não somos merecedores das graças divinas.

DEUS AINDA NOS AMA

Como estamos vivendo em um mundo de provas e expiações, mesmo que estejamos no ingresso para a regeneração, vemos e vivenciamos situações que nos parecem o reflexo da ausência de Deus a velar pelos Seus filhos.

Tal sensação leva a alguns a renegarem tal Paternidade e até a Sua existência, mas, no momento da dor, muitos se voltam para o consolo que somente a Sua presença pode trazer. E mesmo que não admitam, outros sentem no âmago de seus seres, ao se verem frente ao “fim” de sua existência, uma certa tristeza por não terem em seus corações a crença neste Consolador, que alivia a alma dos amargores deste momento decisivo.

Mas o importante é que, quando não nos voltamos conscientemente para Ele, a nossa essência se liga ao grande Universo e busca esta conexão para o reequilíbrio perdido. Por isso, mesmo se dermos as costas para Deus, não precisaremos temer porque “ovelha nenhuma ficará perdida”. A demora no sofrimento, entretanto, dependerá somente de nós.

DORES BENDITAS

Diante de todas essas verdades, percebemos como somos ainda impulsionados por situações que nos incomodam e nos fazem tremer naquelas bases que acreditávamos sólidas.

E já que estamos falando sobre saúde, quantas vezes damos uma reviravolta drástica no curso de nossas escolhas, quando somos diagnosticados com algum limitador de nosso tempo aqui na Terra? Poucos saem deste processo sem uma boa análise sobre si mesmos.

A cada ida ao ambiente clínico ou hospitalar, vemo-nos finitos, com uma visão mais dinâmica da vida. Tudo isso porque, a partir deste diagnóstico, cada segundo conta, cada momento é valioso e não deve ser desperdiçado com aquilo que nos escraviza por toda uma vida e que não terá, efetivamente, valor algum para um ser que, ao partir, nada levará daqui; que os tesouros que precisaremos lá, não foram os que acumulamos aqui.

É claro que poderemos escolher passar por estas experiências assoberbando-as com mais sofrimento e revolta. É claro que poderemos nos queixar da vida e em nada relacionarmos a nossa participação ativa para toda construção que desequilibrou as nossas fibras materiais, com base em nossas emoções e sentimentos desajustados, em nossos desejos mundanos exagerados...

Porém, ainda que vivenciemos essa rebeldia na matéria, ainda que não queiramos quebrar os grilhões de nossa escravidão às paixões mundanas, ao chegarmos no plano extrafísico a realidade nos será espelhada como um tapa no rosto. Tudo o que antes nos parecia essencial e que aqui acumulamos, nada nos acompanhará no momento de nossa passagem e nenhuma mentira ficará escondida sobre nós.

Caberá a nós colocarmos os pontos nos “is” e ressignificarmos os nossos valores mais sagrados, porque tudo mudará. Se somos seres eternos, temos um tempo a cumprir nesta matéria e nada e nem ninguém mudará isso.

Que possamos enxergar tudo isso antes de termos de nos aventurar nesta selva assustadora (da doença contraída), para que não seja pela dor e sofrimento que precisaremos refletir e mudar comportamentos.

Adriana Machado

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