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Luz que vem de longe

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— Tá gravando? Precisa falar “1,2,3 e já!”?

— Não. [risos]

— Sabe que, pensando agora, eu nunca vi meus netos contando “1,2,3 e já!” para começar aqueles jogos no computador. Talvez tenha saído de moda.” – Ele deu uma risada que ecoou no quarto do hospital.

Vocês estão aqui para saber da história de minha..., como é mesmo que vocês chamam?

Ah, viagem astral.

Isso mesmo. Então, para honrar o que minhas filhas sempre dizem, e se meu tempo permitir, vamos do começo, ou ‘Vamos a Roma!’ com diz a minha mais velha.

Ele ri novamente.

— Piada de família, desculpe!

Eu sou filho da guerra, digo isso porque soa tão bonito, sei que não deveria, mas soa. Meu pai foi pracinha, esteve em Monte Castelo. Em uma incursão, ele entrou em um vilarejo e conheceu a minha mãe. Na época, mais jovem que ele uns três anos. Ele contava que ela estava lindamente horrível, com cabelos desgrenhados, sorriso meigo, sem um dente, escondida sob a escada de uma casa em escombros. Não vou entrar em detalhes, essa é outra de minhas muitas histórias. Para resumir, ele salvou minha mãe. Tempos depois, ele se feriu gravemente em um bombardeio e voltou para o Brasil deixando minha mãe para trás. Um grande amigo de meu pai lhe escreveu da Itália, contando sobre a gravidez de minha mãe.

Oi?!

  Luna. O nome de minha mãe era Luna. Meu pai conseguiu trazê-la para o Brasil quando eu já tinha quase um ano. Não tenho irmãos e cresci em uma família relativamente normal. Mas, como não poderia ser diferente, aos 17 anos descobri que eu não era normal. Primeiro me apaixonei pela arte, um grande erro. Dei muita sorte e me empreguei em um bom jornal. Consegui conciliar uma renda com minhas produções. Me casei com a mais sensacional das mulheres e tivemos duas filhas lindas.

Depois do golpe, acho que em 68, fui denunciado como “viado” comunista. Sim, havia me apaixonado por um amigo da repartição. Não posso dizer que fui torturado, não como muitos foram, mas por alguns dias apanhei e fui colocado, sem roupa, em um lugar com o ar condicionado ligado, o que deixava o quarto muito gelado.

Essa foi a ocasião da minha primeira viagem astral.

Apagado, com o corpo todo doendo, me vi andando livremente sem roupa por dentro do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna). Ninguém me via, mas eu via todo mundo. Pensei em fugir e vi meu corpo deitado em posição fetal sangrando. Fiz a única coisa que podia, pensei na minha mãe e dizia pra ela me procurar ali. Acordei com um chute, abri meus olhos e lá estava ela com um soldado e um outro cara que ficou me perseguindo por meses.

Fui solto e o jornal me aceitou de volta. Fiquei quieto por anos. Mais reservado, passei a ler e deixar o tempo passar. A vida foi generosa mesmo sendo visto pela sociedade como pervertido. Quando as meninas eram adolescentes, aceitaram o fim do meu casamento e permanecemos amigos.

Mudei de país, fui morar e estudar fora por dois anos. Na França, conheci dois amigos que eram espíritas e no convívio com eles, tive acesso às obras espíritas e vi que me reconhecia em muitas delas. Fiquei, digamos, obcecado pelo tema da morte como a conhecemos e, principalmente, sobre a morte que não conhecemos.

Sim, foi na minha fase tanatológica, digamos assim. Meus pais morreram em um trágico acidente de carro. Na ocasião, eu estava em Paris e recebi um telefonema de Helena. Atendi, disse “alô” – ela ficou muda e começou a chorar, mas eu sabia que era ela – falei: “meus pais morreram?”. Helena só chorava.

Na noite anterior eu acordei, fui ao banheiro e depois à cozinha, beber água. Na volta, no corredor, passei pela porta do quarto onde ficavam alguns quadros e, de relance, vi meus pais em pé, abraçados, olhando para uma de minhas telas.

A tela? Um quadro de um ser que vem do espaço, conversando com um casal que perdeu um filho. Esse quadro encontra-se, hoje, na sala de um professor na universidade de Madri.

Não, não o vendi, dei de presente quando fomos morar juntos.

Mesmo com tantas passagens e vivências que poderiam ser interpretadas como provas da existência da proposta espírita, eu nunca fiquei muito confortável com alguns pontos. Acho que por conta da minha história pessoal. Eu entendia que a proposta dos diferentes níveis de evolução era hierárquica e isso me incomodava e ainda me incomoda muito. Mesmo sendo um estudioso do Espiritismo, faço minhas visitas em outras “praias”.

Ele ri e se engasga.

— Até me envolvi com uns pilantras que se diziam ufólogos.

Sim e não. Acredito que existam outras formas de vida. Mais recentemente, como vou contar a seguir, entendi que essas formas também possuem um propósito em nossas vidas.

Antes desse vírus, metido a rei, me infectar, poucos dias antes do meu primeiro sintoma, eu fiz minha penúltima viagem astral. Havia voltado da minha caminhada matinal, entrei em casa, me senti ofegante e me sentei no sofá. Reclinei a cabeça para descansar e depois de um suspiro profundo me levantei. Na hora reconheci a sensação. Então, pensei comigo, o que vai ser agora? E um brilho apareceu na varanda da sala. Fui em sua direção e ficamos ali, os dois, um de frente para outro, como se estivéssemos admirando um ao outro. E me vi deslocado para outra época.

Não, no passado não. No futuro. Minhas filhas estavam com seus netos, imagina? Já crescidos, moços e eu podia sentir que tudo estava bem, o mundo estava calmo e em harmonia, sentia ...

Não, não era uma paz do tipo celestial ou coisa que o valha. Era um mundo onde as pessoas não conheciam as turbulências deste mundo de hoje, a competição, a rivalidade, a falta de respeito absoluta pela diferença ou diversidade. Acordei na minha cama suado da caminhada, fui pro banho e quando saí já saí tossindo.

À noite liguei pra minha filha contando que havia sentido falta de ar. Fui internado e entubado. Pra minha sorte...

Sim, essa sorte também, sorte de ter um respirador para mim, mas eu me referia a outra sorte. A sorte de ter feito minha última viagem astral. Nela, eu pude visitar todas as pessoas que foram e são muito importantes na minha vida. Estive com elas e, em pensamento, disse a cada uma delas que esse mundo está com o seu prazo de validade expirando e já, já as coisas e as pessoas vão se acalmar. Os agitadores que se debatem e resistem à evolução, farão em outro lugar, em outro mundo, esse exercício evolutivo. Aqui, neste mundo azul, ficarão os pacificadores. Estou com sono...

Sim, vou descansar, e não demoro. Volto quando tudo já estiver bem.

Eu lembro que a Luz me disse: ‘Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a Terra. (Mateus 5:5.)


Paulo Canarim

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