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Medo x Capacidade de Amar

medo x capacidade de amar

Hoje, vivemos um momento em que o medo veio morar em nossa casa. Seja por circunstâncias externas, seja por motivos internos, parece que o deixamos entrar como convidado de honra, e não percebemos o quanto ele pode nos ser prejudicial se não o limitarmos em suas exageradas expansões.

Tal como qualquer ferramenta bem lubrificada que nos auxilia para caminharmos em prol de nosso crescer, o medo, quando bem empregado, pode nos tornar mais cautelosos, diligentes e responsáveis no percurso que trilhamos. Porém, quando abraçado sem a devida racionalidade, pode nos afundar nos lamaçais da ausência da coragem, da fé, do otimismo e do autoamor.

Assim, até podemos convidar o medo para nos acompanhar, mas é necessário deixá-lo limitado até onde ele não for prejudicial ao nosso crescimento.

O MEDO NA HISTÓRIA DE NOSSAS VIDAS

Quando os fatos que tememos estão no nosso mundo exterior, precisamos extrair de nós todo o nosso saber, tudo o que nos embasaria para podermos lidar com tais situações, sem que elas nos massacrem e nos tirem aquilo que nos é mais precioso, o nosso Eu divino.

Por gerações fomos nos moldando segundo as experiências que vivíamos e, por muitas vezes, nos deixamos levar pelas desesperanças, pelas dores, pelas interpretações errôneas das experiências ofertadas, acreditando-nos vítimas ou abandonados pelo Pai Divino.

O que não percebíamos na Soberana Sabedoria é que, a cada experiência vivenciada nos tornávamos mais fortes e capazes de superar outras tantas circunstâncias que nos levavam a um lapidar efetivo do nosso próprio Eu. 

Mas, por não estarmos preparados emocionalmente para tomar as responsabilidades em nossas mãos, fomos nos afastando de nossa essência.

 “Surge, então, a carência afetiva, a falta do ser divino que se é desde a criação." [1]


Se tivéssemos olhos de quem quer enxergar, perceberíamos que, com essa atitude em rejeitar a nossa Essência, estávamos nos abandonando, nos rejeitando, nos magoando e nos perdendo de nós mesmos, e, por não conseguirmos viver sem o amor que nos preenche, fizemos do outro uma âncora para suprir as nossas emoções desalinhadas.

 “Essa dor emocional [mágoa de si mesmo] expõe o ser a relações nas quais, para ser amado, precisa prestar favores. São os casos em que a pessoa vive para agradar. Isso é uma experiência problemática e dolorosa." [2]


É ótimo sermos alvo do amor de quem amamos. É ótimo sentirmos que há um retorno amoroso daquela pessoa a quem nos dedicamos de corpo e alma, e isso nos complementa e nos faz felizes. Ao mesmo tempo, porém, vivemos em um suspense infinito, de que, a qualquer momento essa pessoa pode deixar de nos amar.

Mas, por que pensamos assim? Simplesmente, porque somos passíveis de nos afastar delas pelas mágoas, revoltas e dores sentidas, quando elas nos desagradam. Então, como achar que elas reagirão diferente?

Por isso que, na atualidade, vemos muitos pais reféns de seus filhos, pois, por estarem afastados de seu próprio amor, eles querem, mais do que nunca, ser amados e temem perder a sua “única” fonte de amorosidade.

Assim, se, intimamente, entendemos que amar é dar 101% (cento e um por cento) de nós, mesmo que não ajamos assim, exigiremos de quem está ao nosso lado essa postura para provar o seu amor e nos sentirmos supridos dele.

A IMPORTÂNCIA DO MEDO

O medo é um estado emocional que nos alerta para todo tipo de perigo que nosso ser já aprendeu a identificar, e nos afasta daquilo que poderia nos fazer “mal”. Então, ele é muito importante para a nossa sobrevivência.

Mas, quando o exacerbamos, ele deixa de ser o freio que usamos, a cada vez que empreendemos velocidades incompatíveis com a via em que rodamos, tornando-se o freio de mão que, se não o desengatarmos, impedirá o carro de sair do lugar, indefinidamente.

Certo é que, usado de uma maneira mais dinâmica e racional, o medo ponderado, juntamente com o nosso resgate íntimo, nos leva a construir impérios emocionais equilibrados, onde compreenderemos melhor o que é amar.

MEU PRIMEIRO FOCO DE AMOR

Se não percebermos quem estamos amando, não teremos como saber como melhor amar e nos libertar do medo exagerado.

Se eu pedisse que você fechasse os olhos e pensasse em quem você ama, quem seriam as pessoas que apareceriam em sua mente? Tente.

Pensou?

Qual foi a reação emocional que teve? Agradável? Fico feliz.

Tentando acreditar que todos pensaram em, pelo menos, uma pessoa que fez com que o seu coração pulasse de felicidade, pergunto:

— Você pensou em si mesmo?

— Se pensou, quantas pessoas amadas vieram antes de você em sua lembrança?

Se você foi o primeiro em sua lista de amores, eu lhe dou os parabéns, mas se não foi, talvez você tenha se esquecido de que você também precisa lembrar de se amar!

É capaz de você dizer que os que vieram em sua lembrança antes de você eram os seus filhos, companheiro(a), pais... e lembrar deles primeiro é extremamente natural, pois você os coloca no alto patamar de suas preocupações.

Mas, se é assim, quando é que você estará olhando para as suas reais necessidades e as atendendo para a sua própria felicidade?

“Mas, fazer os que amo felizes me traz felicidade!”, você poderia dizer! E eu concordo: ser útil é extremamente gratificante, quanto mais quando somos uma parte importante na vida de nossos amores. Porém, estamos agindo assim por reciprocidade amorosa ou por dependência emocional?

RECIPROCIDADE OU DEPENDÊNCIA EMOCIONAL

Não é fácil chegarmos à verdadeira resposta dessa pergunta feita acima, porque em um ato reflexo diríamos: “Claro que é por reciprocidade!”. Infelizmente, porém, isso não está tão claro assim para nós!

RECIPROCIDADE é “o equilíbrio dos relacionamentos amorosos”, onde nos sentimos “amados, protegidos e respeitados, experimentando um estado enriquecedor de nutrição afetiva." [3]


Mas, para que isso seja real precisamos ter desenvolvido em nós, além de outros fatores, o autopertencimento, que é um dos caminhos trilhados quando estamos embrenhados na construção sólida de nosso autoamor.

Se estamos fazendo isso sem desejar nada em troca, posso até dizer que estamos em um processo de reciprocidade, porque não dependemos do outro para nos sentirmos conectados ao amor que este outro SABE nos amar. Se estamos, porém, fazendo isso tudo necessitados da atenção, amparo e retribuição dele, então, ainda estamos em uma relação de DEPENDÊNCIA EMOCIONAL, não compreendendo o que é chegarmos ao estágio do autoamor, onde antes dos nossos amores nos aprovarem, nós já fizemos isso e ficamos bem.

DAÍ, TEMOS MEDO...

... porque, não sabendo viver sem o amor do outro, sem a sua atenção, desnorteamos a relação de reciprocidade que equilibraria a relação amorosa existente entre os seres que se dizem amar.

Este medo também nos impede de enxergarmos que merecemos o nosso amor por nós. Não o amor que já temos, em razão do nosso ego, mas aquele amor misericordioso, sóbrio, valoroso, que não mente sobre quem somos ou sobre os esforços que precisaremos empreender para continuar no nosso caminhar.

Mas, será que somos capazes de nos amar assim? Eu responderia com um sonoro SIM. Porque se somos capazes de amar intensamente outro ser humano, mesmo com todos os seus defeitos, somos capazes de voltar a nos amar, e este será um amor muito mais profundo e consolidado, porque quebraremos as carências afetivas construídas por termos dado às costas a quem é, e sempre foi, extremamente importante para nós.

POR FIM, A QUEM MAIS TEMEMOS?

Percebendo-nos afastados de nosso Eu interior, por mágoas que vamos acumulando em nossas vidas sucessivas contra nós mesmos, vamos criando um abismo entre nós e o nosso Eu mais profundo, o que nos impulsiona a nos vincularmos ao Eu do outro para compensar a sensação de autoabandono.

O ponto é que não há como alguém suprir o vazio que somente nós podemos preencher. Não há como alguém substituir o que somente nós podemos nos dar:

 “(...) nenhum relacionamento oferecerá um nível tão consistente de pertencimento se cada um dos membros não estiver desenvolvendo o autopertencimento, promovido pelo movimento de autoamor do qual se nutrem e sentem pertencer, antes de tudo, a si próprios. Esse autoamor extingue as sombras da carência e da falta de si mesmo, distanciando o ser da postura enferma de depender do outro para se preencher." [4]

Paremos de fugir de nós mesmos, como se fôssemos monstros nesta escala de valores. Temos condições de fazer as pazes conosco porque:

- merecemos o nosso autoamor;

- já deixamos de ser aquela pessoa que éramos quando, agindo na ignorância, nos afastamos de nós mesmos;

- a nossa essência, há muito, já nos clama retorno íntimo e, por temermos nos magoar de novo, teimamos em não escutá-la...

A quem mais tememos? A um ser que há muito deixou de existir e que ele, apesar de ainda ter MEDO, já expandiu em muito a sua CAPACIDADE DE AMAR.


Por: Adriana Machado


[1] Dufaux, Ermance. Amorosidade (Locais do Kindle 218). Editora Dufaux. Edição do Kindle.

[2] Dufaux, Ermance. Amorosidade (Locais do Kindle 221-223). Editora Dufaux. Edição do Kindle.

[3] In Amorosidade: a cura da ferida do abandono. OLIVEIRA, Wanderley. Ed. Dufaux, cap I
[4] Dufaux, Ermance.
Amorosidade (Locais do Kindle 211-214). Editora Dufaux. Edição do Kindle. 

Adriana Machado
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