Notícias

NÓS E A PANDEMIA QUE ASSOLOU O NOSSO MUNDO INTERNO

NÓS E A PANDEMIA QUE ASSOLOU O NOSSO MUNDO INTERNO

Sei que muitos podem pensar: “Mais um texto sobre a pandemia!” Mas não é sobre ela que quero falar e sim, sobre o momento íntimo que cada um de nós está vivendo e, na maioria das vezes, evitando enfrentar.


PIADAS E ENFRENTAMENTO DA DOR

Começo observando que, para todos os lados que vejo, ouço piadas bem difíceis sobre o nosso papel neste momento em que ninguém, ninguém mesmo, imaginou vivenciar.

Ouço piadas das mais variadas falando como está sendo difícil lidar com maridos, esposas, pais, filhos, irmãos. De como está difícil ficar em casa com aqueles que dizemos amar e rimos de muitas piadas assim, porém, com o tempo, tudo isso está perdendo a graça.

Como o brasileiro usa todos os assuntos para fazer anedota, a gente logo ri ao ler ou ouvir algo, mas como toda verdade faz coro em nossa consciência, com o tempo, começamos a notar que por trás de cada risada, tem uma mensagem surda do nosso espírito pedindo socorro.

Mas nós não rimos apenas. Também nos irritamos com determinadas piadas, achando-as de mal gosto.

A cada irritação ou para cada risada que damos dessas anedotas, fica demonstrado o quanto podemos estar incomodados, e isso nos assusta muito.

Perguntas íntimas, do tipo: “Como conseguir ficar por algum tempo com a minha família, sem desejar sair correndo de casa?” Como conseguir fazer o afastamento social sem ter tudo aquilo que, antes, me distraía a cabeça? Como posso olhar para os meus familiares e brincar dizendo que “a vida precisa voltar ao normal” porque eu não aguento mais ficar com eles? Essas questões nos fazem repensar sobre como estávamos, até hoje, enxergando a nossa vida.


PARÂMETROS REAIS

Buscando analisar os parâmetros atuais:

  • Talvez não seja fácil lidar com crianças presas dentro de casa, porque elas buscam passar o tempo fazendo muito barulho e exigindo alguma atenção. Esquecemos que já fomos assim!
  • Talvez não seja fácil lidar com os filhos adolescentes, porque os seus interesses parecem que se perderam dos nossos e podem, quando incitados a interagir conosco, não nos dar a atenção que desejamos ou serem até malcriados. Também já fomos esses adolescentes!
  • Talvez não seja fácil ficar todo o dia do lado de seu companheiro ou companheira porque o assunto acaba. Ninguém é tão criativo!

O que não nos atentamos é que para tudo isso existe uma solução.

É NORMAL?

Reflitam comigo: quem disse que é normal ficarmos o dia inteiro conversando, brincando ou dando total atenção a quem gostamos?

Ora, cada um de nós precisa de seu tempo de paz, de silêncio, de não fazer nada ou de fazer algo que nem todos gostam... e isso faz parte da vida, não é errado, ao contrário, é salutar para todos os integrantes da família.

Então, quando eu penso que agora é a minha vez de assistir um programa e deixar as crianças brincando sozinhas ou o companheiro(a) lendo o seu livro, ou ouvindo a sua música preferida, está tudo bem!


É COMPLICADO OU SIMPLES?

O ponto crucial é que não estamos acostumados a tudo isso e complicamos o que pode ser simples!

Complicamos tanto que não percebemos que a nossa grande dificuldade está em mudarmos aquela rotina que estávamos acostumados. Temos dificuldade de enxergar que diante de circunstâncias diferentes, podemos, ou até devemos, abraçar metodologias diferentes.


PARA ISSO, NO ENTANTO...

... precisamos abrir mão de algo nosso (desejo) para nos doarmos para o outro (vontade). Não fazíamos isso o tempo inteiro no nosso ambiente profissional? Por que não em casa?

Pensando nas crianças, o que elas mais necessitam de nossa parte é a atenção, porque criatividade elas têm muito além das paredes de nosso lar.

Relembrando aquelas piadas em vídeos, áudios ou textos, que mencionamos acima, falando que estava insuportável ficar em casa porque a mulher não dá folga; porque o homem só sabe reclamar; uns querendo até serem presos para não precisar aguentar aquela pessoa com quem está dividindo a sua vida, a sua casa!!

Ora, vocês concordam comigo que algo está errado? E esse algo não vem de agora?

Esse momento em que vivemos, só nos mostrou que isso já existia e que esse algo precisa ser flagrado e, quem sabe, corrigido.

De qualquer forma, já posso afirmar que o que falta para a maioria dos relacionamentos é o diálogo. E, se hoje não há diálogo, é porque ele ainda não foi construído entre as partes, mas pode ser!

Essa pandemia poderia ser aproveitada para aprimorarmos muito do que há em nós. Uma das lições que podemos extrair disso tudo é que está na hora de tentarmos descobrir do que o outro gosta, abrindo mão de nossos exclusivos interesses.

Quando agimos assim, colocamos em segundo plano os nossos desejos (voltados todos para nós), para aplicarmos sobre eles a nossa vontade de mudarmos nossa rotina em prol daquela pessoa que é importante para nós). Se agirmos assim, veremos que nossos esforços produziram frutos favoráveis, inclusive para nós, porque estaremos construindo um ambiente familiar muito melhor de ser vivido.

Se assim o fizermos, poderemos trocar experiências das mais valiosas, criando um ambiente de companheirismo e amor. Não nos esqueçamos jamais que as pessoas que estão ao nosso redor formam a nossa família, o nosso núcleo de estabilidade emocional.


SENTIMENTOS EM DESALINHO

De tudo isso, o ponto chave que trago, diante de cada um desses exemplos, é a culpa que carregamos por nos depararmos com sentimentos tão conflitantes em relação àqueles que tanto afirmamos amar.


MEU ALVO SOU EU

Trago uma ponderação feita por Wanderley Oliveira, em sua obra Depressão e Autoconhecimento, onde, ao comentar sobre o egoísmo intrínseco e suas consequências em nós, nos deu um parâmetro para refletirmos sobre quem somos:

“(...) quem se apega demasiadamente e exclusivamente ao seu próprio cuidado, termina debilitando a sua estima pessoal. Vale ressaltar que esse cuidado pessoal mencionado se refere àquele que custa algum prejuízo ao bem alheio. Quando, para cuidarmos de nós, atendendo aos nossos próprios interesses, causamos lesão a alguém, estabelecem-se os princípios naturais que estão arquivados em forma de sentimento de culpa pela nossa transgressão às leis divinas ou naturais. Essa culpa é a fonte corrosiva da estima pessoal, porque, quando tomamos consciência do mal que semeamos e decidimos repará-lo, nos sentimos pequenos e sem valor. A essa dor interior damos o nome de expiação, a dor de ter de conviver o tempo todo com o que sentimos a nosso respeito.”[1]

Ora, como posso não querer sentir tal contradição em meu mundo interior se, obrigada a ficar em casa, me vejo verbalizando e sentindo que amo aquelas pessoas, mas não as aguento!?

Como não me atingir de forma corrosiva, se não compreendo o que se passa no meu templo interior? Por que, por falta de entendimento de mim mesma, não consigo agir e parar de alimentar sentimentos tão lesivos e avassaladores pelos meus amores, não percebendo que a mais atingida seria eu mesma?

Então, algo precisa ser mudado e mudanças não são fáceis de serem abraçadas. Na maioria das vezes, desejamos nos manter no estado em que nos encontramos porque nele nos sentimos, mesmo que incomodados, confortáveis, por acreditarmos que nada nos surpreenderia na nossa zona de conforto.

Se assim é, percebe-se que em um momento como este o mais importante é nos conhecermos. Se não soubermos quem somos e o que está em nós, como poderemos agir sobre o que é necessário aprimorar?


REFLEXOS DE MINHAS AÇÕES

Assim, entramos num processo muito semelhante ao de inadequação em nós mesmos, que no campo dos sentimentos, as nossas sensações podem girar em torno de quatro padrões: “tristeza, culpa, medo e raiva, desenvolvendo diversos sintomas, como inadequação, sensação de não merecimento, incapacidade, ausência de motivação, baixa tolerância à frustração, sentir-se insuficientemente bom para ser amado, crença de que não dará conta da vida, entre outros."[2]

Daí, pensando que estamos sentindo tudo isso pelo outro, não percebemos que é para nós mesmos que direcionamos todas essas emoções em desalinho.


AUTOCONHECIMENTO COMO REMÉDIO PARA A DOR

Então, é necessário darmos um passo de cada vez e nos autoconhecermos dia a dia. Sem sabermos o que nos impulsiona em nosso mundo das emoções, jamais conseguiremos aperfeiçoar o que ainda precisa ser trabalhado. Precisamos perceber quando estamos direcionando sobre os nossos amados todas as nossas frustrações, produzidas pela culpa de possuirmos sentimentos ainda mal compreendidos, para que flagremos cada emoção e reação nossa, dando-nos a capacidade de reformular a paz de nós para conosco, e de nós para com todos ao nosso redor.

Adriana Machado

[1] Oliveira, Wanderley. Depressão e autoconhecimento (Locais do Kindle 708-713). Editora Dufaux. Edição do Kindle.

[2] Oliveira, Wanderley. Depressão e autoconhecimento (Locais do Kindle 716-717). Editora Dufaux. Edição do Kindle.



Adriana Machado
Últimos posts por Adriana Machado (exibir todos)