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Um bom dia

um bom dia

A imagem no espelho reflete um rosto magro. O tempo registra em cada ruga uma história, uma passagem da vida. Djalma, no alto de seus setenta e oito anos, passa a mão sobre a pele dura e seca e pensa que preferia ser jovem. Após barbear-se, alguns tapas para amaciar, colônia e talco. O nó na gravata, feito sem pressa. Todo o ritual embalado ao som de Lupicínio Rodrigues. Cabelos brancos e fartos cuidadosamente penteados para trás. O relógio da sala marcava nove horas da manhã; é hora de sair. Desliga o rádio, veste a casaca e a boina. No corredor, aperta o botão do elevador. São dois, aguarda. Com alguns minutos de espera ouve-se o som do motor de uma das máquinas. O outro fica parado no quinto andar. O prédio é antigo e o elevador se move lentamente. Sem se aborrecer, Djalma repara na impaciência de uma jovem moradora que acabara de chegar: anda de um lado a outro, com o olhar fixo nos números que se iluminam quando o elevador passa pelos andares. Parou. O elevador também para no quinto andar.

"Não é possível!", fala a jovem, batendo com as mãos nas pernas.

"Eu nasci em 1932. Sabe o que aconteceu naquele ano?", Djalma fala sem olhar a moça, que lhe responde enquanto bate na porta do elevador.

"Ah! Como vou saber? Nasci em 78!"

"Coincidência, esta é minha idade. Ele não vai chegar."

"O que aconteceu em 32 de importante?"

"Fora o meu nascimento? Uma revolução. O governo de São Paulo se levanta contra o de Getúlio Vargas e seu Estado 'provisório'."

"1978 foi o ano em que o Brasil perdeu a Copa num jogo roubado, seis a zero. Eu sei porque meu tio gravou o jogo em uma 'Super 8' e fala disso até hoje."

"É verdade, foi nesse ano que conheci minha última esposa. Que Deus a tenha. Ficamos casados por vinte anos."

"Separaram? Olha, o elevador saiu do quinto."

"Certamente. Parou no quarto andar."

"Agora você mora sozinho?"

"Ela faleceu. Eu preferi ficar só. Demora um pouquinho, mas chega."

"Também me sinto só. Terminei meu noivado em maio, mês que me casaria. No dia 17, há dez dias do casamento. Ele me levou num parque de diversões. Entramos na montanha russa, quando parou, disse: 'sinto muito, mas amo outra pessoa'."

"Foi nesse dia que faleceu a famosa escritora Zélia Gatai. Chegou!"

"Aonde você vai tão bonito?", perguntou, ajeitando a gravata dele.

"Ao médico. Sabe como é... A velhice... E você?"

"Também vou ao médico, estou esperando neném."

O elevador parou e a porta se abriu. Estava cheio. Desceram pelas escadas.

Paulo Canarim
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