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RECOMEÇAR

Gustavo Cury

Este artigo é baseado nos textos “Severidade consigo mesmo” e “Estados Emocionais” da obra VIBRAÇÕES DE PAZ EM FAMÍLIA.

Conta uma velha história oriental que certa vez um discípulo, procurando beber da fonte de sabedoria do seu mestre, questionou:

– Mestre, como faço para me tornar um sábio?

– Fazendo boas escolhas.

– E como aprender a fazer boas escolhas?

– Experiência.

– E como desenvolver experiência?

– Fazendo más escolhas.

Para o senso comum, há uma leitura bastante limitante e equivocada em torno do erro.

Vivemos em uma cultura na qual, em todas os campos de experiências, o equívoco é tratado como algo digno de punição. Já mesmo na escola, desde a mais nova idade, nossas crianças são condicionadas a acreditar que uma nota escrita num pedaço de papel é indicadora de inteligência ou da falta dela.

Assim também, são levadas a crer que se forem inaptas a desenvolver determinadas habilidades, como fazer cálculos ou escrever bem, são burras, inferiores e incompetentes para gerir a própria vida.

Tal postura é reforçada pelos pais que, não por falta de amor, punem os filhos quando malsucedidos. Talvez seja essa a estrutura mantenedora da cultura que pune o erro.

Várias questões gravitam em torno da cultura da punição do erro. Um dos efeitos mais imediatos é o medo de viver a partir do medo de errar. A grande contradição é que a base do acerto é o próprio erro, como as bases das boas escolhas são as experiências. E é impossível ser experiente sem experimentar.

Outro processo comum é o desenvolvimento de estados de culpa e autopunição a partir do erro, como se isso fizesse bem a alguém.

Outro processo comum é o desenvolvimento de estados de culpa e autopunição a partir do erro, como se isso fizesse bem a alguém.

A culpa em si nem sempre é o problema. Consciência pesada é um estado muito eficaz para promover mudanças, ao contrário do estado de consciência leve. No entanto, o cultivo da culpa como autopunição, além de não gerar benefícios, pode até mesmo comprometer ainda mais a pessoa, tanto no que diz respeito à reparação do erro quanto na direção do progresso a que se propôs espiritualmente, mesmo que não se recorde dos compromissos assumidos com essa última.

Num entendimento simples, sempre que você sofre com a culpa e se pune, por mais que você ache que tem razão em fazê-lo (e em algum nível pode até estar certo mesmo) em termos práticos você está estacionado, sendo que poderia estar fazendo alguma coisa. E ficar parado não é bom para ninguém. Ninguém pode se beneficiar do seu sofrimento e autocomiseração.

Aí, me vem à mente uma conversa que tive:

– Mas Gustavo, como posso me perdoar depois do que fiz?

– Não consigo imaginar como você pode não se perdoar.

– Mas o que fiz foi terrível.

– E isso quer dizer o que?

– Que sou uma pessoa terrível?

– Talvez naquele momento você tenha sido. Isso não quer dizer que você seja  terrível. Significa, apenas, que foi terrível quando o fez.

– Mas fui um babaca. Feri a pessoa que mais amo.

– Sim, você fez uma babaquice. Como você está agora?

– Péssimo!

– Que bom! – respondi dando o sorriso mais carinhoso que consegui.

– Como bom?

– O que seria de você se, ao perceber-se um babaca se sentisse bem com isso?

–  Sim, você já me disse isso antes. Mas como posso conviver comigo mesmo depois de ter feito o que fiz? Como posso ficar bem?

– E ficar mal está fazendo bem para a pessoa que você machucou?

– Como assim?

Lembrei-me de uma imagem utilizada frequentemente por um professor a quem muito admiro:

Pensa nesse cenário. Você e eu estamos saindo de um supermercado, cada um com sua sacola de compras. Esbarro em você e cai da sua sacola uma caixa de ovos. Todos se quebram. Então olho para você e digo: “Fulano, não se preocupe. Vou consertar isso". Então pego da minha sacola uma caixa de ovos e jogo no chão: “Pronto, agora estamos quites”. Quem ganha com isso?

Ninguém!

– E mais que isso! Todos perdem! Antes, era uma caixa de ovos a menos no mundo. Agora são duas. Coitadas das galinhas.

Rimos juntos, o que foi positivo. Diante da realidade costuma ser mais leve não se levar tão a sério.

– O que eu deveria fazer então para ficar bem?

– Na história do ovo, o que te parece sensato?

– Que você me dessa outra caixa de ovos.

– Precisamente! É só isso que a vida pede quando erramos! Reparação!

– Mas ela vai me perdoar?

– Aí já é com ela! Pode ser que não. Mas uma coisa é fato. Enquanto você se olhar com vitimismo e autopiedade, nada vai mudar. Reparando há alguma esperança.

Diante do erro, arrependimento, expiação e reparação. É o que nos sugere Allan Kardec na obra Céu e Inferno. Só não erra quem não faz. E quem não faz não vive.Caiu? Como ensina Jesus ao paralítico no poço de Betesda¹. Levante, assuma seu leito, e ande. Não importa o quanto, ou para onde. Apenas movimente-se. Não importa a gravidade do erro, quanto antes você se recolocar no caminho, melhor. Até porque, pelo menos até hoje, não temos uma máquina do tempo para voltar e fazer diferente. Contudo, parafraseando nosso querido Chico Xavier², podemos agora mesmo construir um novo fim.

¹ Marcos 2:9 – “Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados; ou dizer-lhe: Levanta-te, e toma o teu leito, e anda?”.
² “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.”.

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