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CONVERSA COM EDGARD ARMOND SOBRE A JUSTIÇA DIVINA¹

Ednei Procópio

PARTE 1

Uma conversa agradável e ao pé do ouvido com o Comandante Edgard Armond, um dos maiores expoentes do Espiritismo no Brasil.

— Edgard, obrigado por conversar com a gente!

— Estamos contentes que possamos trocar experiências sobre este momento em que todos cobram a verdade da justiça brasileira.

— Irmão, porque às vezes temos a nítida sensação de que estamos mais errando que acertando?

— Porque, de certo modo, o erro é um dos processos que nos fazem crescer. E é o erro que deve ser observado com cuidado para que nós possamos acertar o próximo passo. O acerto, muitas vezes, não nos cobra uma conduta diferente a nível de pensamentos e sentimentos. Quando acertamos o espírito se eleva; e se não há cobrança de nós mesmos é porque estamos indo na direção certa.

— Às vezes cometemos os chamados erros capitais, que não temos coragem de confessar nem a nós mesmos...

— Mas, ao praticá-los, eles já foram, de certo modo, confessados à Deus. Não pela sua própria admissão, mas pelo testemunho daqueles que o confirmam diante de você. Por isto é que se diz que nada fica encoberto aos olhos do Pai.

— Mas, estando no mundo material, encarnados, é muito difícil não pecar. Sinto que é quase impossível!

— O pecado em si é uma invenção, ou uma convenção, diria eu, para que uns se prevaleçam sobre os mais fracos. Erro, falta, pecado ou ação contrária, dá no mesmo. O que se pode fazer, para estar sempre bem, é não violentar a natureza divina do próprio espírito. E a quem nos lê, o conselho que damos é que se mantenham firmes no propósito da fé e do bem. É deste modo que se manterão longe dos erros que corrompem o ser e que podem diferenciar-se daqueles chamados de erros capitais.

— Então eu poderia manter limpo o meu espírito, mesmo cometendo os erros da carne?

— Sim, isso até seria possível. Mas esta sabedoria e conhecimento já não te livram mais de julgo igual perante as leis do Divino. Se você sabia que era errado fazer algo, então porque o fez?

— E qual é a sentença, neste caso?

— Não cabe à Deus a sentença do erro cometido quando se sabe ou se mantém conhecido o delito. Em casos assim, cabe a si próprio a reação que lhe convém. A Lei de Ação e Reação foi criada por Deus exatamente para dar aos que já sabem ou tem conhecimento sobre o delito, a chance de reparo dos seus próprios erros, numa espécie de tribunal menor, da mente, digamos assim. Mas, veja, isso não é um conceito.

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— E isto leva quanto tempo?

— Mais ou menos o mesmo espaço de tempo em que a ação foi proferida. Embora isso também não seja um padrão, apenas uma referência.

— É o famoso “o que aqui se faz, aqui se paga.”...

— Tão famoso que muitos erros ainda ficam em débito e são arrastados por futuras encarnações, notadamente quando são erros grosseiros.

— E quanto ao aborto, estupro, incesto, traição... enfim, todas estas questões tão em voga hoje em dia?

— São todos erros cometidos contra si mesmo ou ao seu próximo, não contra Deus. Ninguém alicia Deus. E Deus já perdoou dos homens tais erros por meio de Jesus. Porém, os homens ainda carregam em si próprios a nítida sensação de que erram com tais atos.

— Mas você poderia explicar as minhas citações anteriores, neste contexto?

— Sim, claro. Para quem não crê na reencarnação, por exemplo, o aborto talvez possa parecer algo de fato trivial. Mas supomos que você, com acompanhamento, tenha feito um acordo de vida com alguém antes de nascer, por conta de uma decisão em particular. O aborto interromperia, adiaria o prazo deste acordo. E é aqui que se perde a oportunidade de manter o acordo antes feito com a espiritualidade.

— Mas e no caso de estupro?

— Quem fere, erra muitas vezes. Principalmente por ofender a honra da vítima. Para este erro há um tribunal que não é sequer o da mente.

— E o incesto e a traição?

— Ambos os erros de si próprio. Primeiro porque ninguém trai a ninguém se não a si mesmo. Portanto quem trai, trai mais a sua palavra do que a honra à quem ela foi dirigida. Quanto ao incesto, a espiritualidade mantem firme o propósito de nascermos mães, filhos, pais e irmãos para aprendermos o amor que deve existir quando superamos os desejos da paixão quando formos parentes próximos de sangue. Caso contrário, neste momento, há uma quebra de acordo entre os espíritos que poderiam manter-se unidos apenas pela fraternidade, mas, em invés disto, abrem mão de um acordo comum a todos. Tanto erra quem pratica, quanto erra quem defende.

— Nada a ver com o que a Igreja prega?

— Nós estamos afirmando que o sexo é livre, pelo menos até o momento do acordo que se coloca na frente para amenizar dos espíritos o apego da carne. Então nós podemos ser amantes em outras vidas, mas enquanto parentes há chances de evitar a aproximação da carne. O aprendizado do amor através de outros tipos de aproximação é o mais importante.

— Então não é pecado?

— Pecado é o modo que se foi visto ou achado. Mas o mais importante, como dissemos, é evitar que se cometa o erro da aproximação, digamos assim, pela carne, pela fornicação, quando o que não deveria ser evitado é o erro da intolerância que diz: “Você, em alguma outra vida, foi o meu algoz. Nesta vida, tenho de perdoá-lo por ser o meu pai”, por exemplo, e, através do amor “dar-me-ei a chance de acender o meu espírito diante de mim mesmo”. Se o pai então fere a filha na carne, ele erra acima e por sobre todas as consciências. E a própria consciência deste pai, que dizem alguns às vezes parecer a ausência desta, há de intervir para levá-lo para o inferno da mente. Pois o próprio espírito, que carrega um DNA de memórias inesquecíveis, sabe quais erros poderiam ofender a Deus, se a Ele todos os erros fossem proscritos.

— Erra também quem é cúmplice?

— O que aprendemos da fé perante a espiritualidade é válido sempre para que possamos exercer o nosso próprio tribunal.

— Então não existe um único tribunal divino lá em cima?

— Lá em cima? Modo de dizer, não é? Os céus estão acima e abaixo deste nosso mundo. Mas este tribunal divino, aos quais as pessoas se referem, somos nós mesmos quando perdoamos ou amamos. Quando criamos as represálias e as dores. Então há o júri da própria vida que é a morte. Em Romanos 6,23 está escrito: “O preço do pecado é a morte”. Então, é na hora da morte que encontramos descritos todos os nossos erros e para onde devemos nos dirigir.

— Que é isto, irmão?

— Para o cárcere da consciência que poucos gostam de sequer proferir, mas que é suja, do espírito imundo, onde há dor e ranger de dentes, nos aguardando para quitarmos as nossas atrocidades. Ou nós também poderíamos nos dirigir para a sala de espera ao lado, onde os nossos irmãos mais queridos nos aguardam para darmos as mãos e acendermos mais um degrau na escadaria que vai dar no céu. Onde não faz sentido ter tribunal algum uma vez que já fomos julgados pelas histórias de erros e acertos de nossas próprias vidas.

— Então a questão não é errarmos perante um tribunal divino?

— Chamam-se a Deus de Juiz Sobre os Justos, é porque Ele já criou o tribunal da consciência, ou do espírito, de onde nenhuma ação contrária escapa, mesmo que você nunca mais encontre uma vítima sua. O julgamento dito divino consiste apenas em reparar erros diante de si mesmo, sempre; a vergonha é só de quem pecou ou errou. Esta lei é única, imutável, indissolúvel. Cabe a vítima apenas perdoar o seu algoz, pois este, com certeza, necessitará ainda mais até do perdão de si próprio. E não sairá ileso de sua própria culpa até que tenha cumprido esta lei divina.

— Nossa! Dá a sensação de que nada realmente sai impune às leis divinas.

— É isto. São os olhos de Deus a avistar os que foram perdoados. E a não perder de vista àqueles que ainda estão trancafiados em uma ignorância própria, digamos assim, sem perdão.

— Se uma irmã nossa então foi aliciada, assediada, vilipendiada, ferida...

— ... ela deve orar e livrar-se de si o peso da carne. E o seu algoz deverá fazer por muito tempo o silêncio do arrependimento, sem o qual não há como lhe tirar o peso do espírito. O primeiro é o mais fácil.

— E o segundo?

— O primeiro tem a ação direta de Deus, pois onde houver o perdão, ali há o amor. E onde houver o amor, ali também há a regeneração. Quanto ao segundo, este não terá de Deus sequer a presença de um advogado, pois o julgo como lhe dissemos antes, é de si para si mesmo, ou de si sobre os outros. Então, quem erra, sempre duas vezes erra. Terá primeiro de obter o perdão do outro a quem feriu, mesmo que este seja a si mesmo. E, quando tiver finalmente quitado todas as suas dívidas lhe será dado à absolvição máxima de todo o resto.

— É duro ouvir isto, irmão, mas, ao mesmo tempo, nos parece o justo. Mas, nesse nosso cenário atual, em que precisamos buscar a regeneração, o que é o pecado nisto tudo?

 — Pecado poderia ser considerado tudo aquilo que fazemos de errado para o mal de nós mesmos; mas, principalmente, o que poderíamos cometer de ação contrária aos outros. Isto se iguala ao erro. O resto é divagação de uma conduta moral de uma sociedade até então engessada por uma religião ou doutrina.

¹ Mensagem psicografada por Ednei Procópio. (N.E.)