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Deixar ir

A ESCOLHA DO PERDÃO

-Mas Gustavo, sei que devo perdoar, mas não consigo.

-E por que você deveria perdoar?

-Por que é o certo!

-Certo em relação a alguma coisa que você acredita ou certo no seu coração?

-Certo segundo a minha religião.

-Qual o problema então? Simplesmente perdoe!

-Mas não consigo. Ele não merece.

-Ah! Entendi o porquê de você não conseguir.

-Como assim?

-Ele não merece porque você julga que seja assim. Ele não encaixa na sua régua. Tentar perdoar colocando-se no lugar de Deus não é só difícil. É impossível! Basear-se apenas numa crença pode ajudar, mas não resolve. É preciso internalizar a proposta, o que só é possível, genuinamente, se ela te tocar a alma.

-Mas o que ele fez é grave!

-Sim, o que não te coloca no lugar de ter direitos sobre a situação como você imagina. Não precisa acreditar em mim, é só avaliar os efeitos.

-Que efeitos?

-Como você se sente em relação a isso agora?

-Sinto raiva e tristeza pelo que ele fez. E ao mesmo tempo culpa por estar assim. E mais culpa ainda por não conseguir perdoar.

-E ele, como está?

-Acho que não está nem aí!

-Pelo que você fala dele, é até provável! Mas, quem acha, não sabe. Na verdade, não sabemos como ele está, nem se merece condenação ou não pelo que fez. Não sabemos de nada, logo julgar com justiça é impossível. E o efeito em você é desastroso.

-O que eu tenho?

-Nesse caso? Mágoa.

-E o que preciso fazer?

-Perdoar.

-Mas não consigo!

-Não é por ele, mas por você! Você me diz que não consegue, mas está baseada em um suposto movimento de absolvê-lo pelo que ele fez. Mas isso não é possível.

-Ninguém pode liberar o outro de si mesmo, e o que ele fez é, antes de mais nada, uma transgressão sobre si mesmo. Você não tem poder sobre isso. Na sensação de incapacidade de absolver você o condena, o que no fundo se encaixa do mesmo jeito nessa situação. Não cabe a você absolvê-lo ou condená-lo. Isso é o trabalho de Deus! Cabe a você responsabilizar-se pela experiencia, aprender com ela e deixar ir.

-Mas a culpa pelo que aconteceu não foi minha!

-Pode até ser assim, mas a responsabilidade sobre você mesma sempre foi e sempre será sua. Tente olhar as coisas por esse ângulo de aprendizado! É libertador.

-Ok, mas e o perdão?

-O perdão que você aprendeu na sua igreja deriva de uma palavra grega que significa "deixar ir".

-E como eu faço pra deixar ir?

-Vou te ensinar uma técnica.

-Nesse momento fiz uma dinâmica que repito com alguma frequência nos atendimentos. Peguei uma sacola bem pesada e pedi a ela que ficasse de pé. Em seguida, solicitei que a segurasse com os braços esticados e na maior altura possível. Continuei conversando e todas as vezes que a sacola abaixava um pouquinho eu a repreendia dizendo:

-Segura isso ai em cima! –

-Depois de dores e tremedeiras ela disse:

-Não aguento mais.

-Então solta!

-Pode?

-Deve! E assim que a gente deixa ir. Simplesmente solta e vai cuidar da própria vida.

Mágoa é uma emoção bastante complexa. Raiva, tristeza, culpa e outras emoções podem gravitar em torno desse estado tão cansativo para a alma. E o pior disso tudo é que não costuma ser muito proveitosa. Como diz um professor a quem admiro muito, mágoa é um veneno que você toma esperando que o outro morra.

Qual seria a vantagem, para você, se o outro sofresse em função do que fez? -Que bem real isso traria à sua vida, que não a efêmera e nada saudável sensação de prazer que deriva da vingança?

Que a justiça, dos homens ou de Deus, se encarregue de ajustar as contas. Claro que não proponho aquela postura pseudo-boa de tolerar tudo. À vítima cabe o posicionamento, de preferência pautado no que é justo.

Tá, o outro não merece. E daí? Solte isso e vá viver bem por você mesmo!

Gustavo Curi