Notícias

JOSÉ, UMA HISTÓRIA DE AMOR

Ricardo Gruppioni

O QUE PRECISAMOS?

Coragem!

Sim, as pessoas estão precisando olhar para dentro de si usando a força do coração e perceberem a falta de viverem a si mesmas. Tenho percebido isso, nas minhas lutas pessoais e na vida de muitas pessoas que compartilham comigo seus segredos, ou simplesmente convivem ao meu lado, como irmãos, amigos, colegas ou pacientes¹.

Não aceitar a si mesmo, não buscar um auto olhar caridoso e auto compassivo é se recusar a viver, o que é a causa de muitas dores do corpo e da alma. É sobreviver no mundo da materialidade sem ir ao encontro do espírito imortal que habita em cada criatura humana.


COMO FAZER?

Somos fortes se aceitamos quem somos e vivemos a nossa realidade pessoal, plenamente e com autenticidade, mas às vezes a vida nos exige um preço muito alto para isso, ou uma vida inteira só para compreender isso.

Todos nós buscamos a espiritualização, em graus, formas e lutas diferentes, mas o objetivo é um só: evoluir, nos desconstruindo e nos reconstruindo a cada dia, a fim de dar preferência em nossas atitudes ao Deus e Pai, que vive em nós em múltiplas potencialidades e manifestações.

Tudo é Divino, do mundo quântico ao mundo espiritual, assim como toda forma de amor o é.

Espiritualizar-se, de maneira simples, é permitir que o espírito que habita em nossos corpos, como herança Divina e multipotente, se manifeste sempre cada vez mais, mesmo que pouco a pouco. O resto que vem é consequência, pois o Espírito é nossa essência à imagem e semelhança do Pai. E Deus age através de sua própria obra.

Nosso texto hoje é sobre isso.

Quero falar da caminhada pessoal de alguém muito querido, que permitiu o relato, mas com a troca dos nomes para preservar o anonimato. Vamos chamar-lhe de José, ou simplesmente Zé, como muitos que existem por aí. A breve história de José, resumida nesse texto, é de amor a si mesmo, a Deus e à vida.


QUEM É JOSÉ?

O Zé já passou dos 50 anos de idade. Foi um menino de interior, brincava nas ruas da pequena cidade onde nasceu, de bola, pique, carrinhos de rolimã, bolinhas de gude e tudo o mais que tinha direito.  Era feliz.

Descobriu bem cedo que era diferente dos outros meninos, e os outros o percebiam diferente. E quando entendeu o que esse olhar alheio significava, se fechou e sua natureza se modificou. Sua face se transformou e criou uma máscara. Seu sorriso se escondeu. O Zé parou no tempo.

Cresceu no corpo, na vida material, destacou-se no trabalho e em seu meio social. Mas estacionou, sofreu, adoeceu, foi invadido por uma doença grave do corpo, submeteu-se a grave cirurgia, mas se recuperou.

E a alma também adoeceu, e muito. Essa foi a pior doença. Sentindo-se oprimido, trouxe pelo medo, essa opressão para dentro de si, e jamais reconheceu sua realidade íntima e nunca expressou sua homoafetividade. Casou e teve filhos. E jurou jamais sucumbir aos desejos que lhe assolavam a alma. Foi fiel a esse juramento e à sua esposa.


E AGORA JOSÉ?

Dizem que o amor é renúncia e eu concordo. O Zé teve uma vida de renúncia, mas jamais uma renúncia por amor.

Renunciar a si mesmo, em nome de alguém ou de algo pode parecer uma renúncia ao mal que existe em si mesmo, mas renunciar a si mesmo não é abrir mão daquilo que te faz feliz.

Nosso Pai Celestial não deseja que nenhum filho leve uma vida de tristezas, mas que liberte seu potencial de ser feliz e o expresse de forma responsável, amorosa, consciente e respeitável, tanto para si mesmo como ao outro.

Chegou um dia, recente ainda, que o Zé não aguentou mais tanto sofrimento, mesmo que ele achasse que tinha demorado demais. Afinal, simplesmente era sua hora, seu momento.

O Zé precisou se destruir por inteiro. E demolir sua vida de máscaras, construída calculada e perfeitamente para se esconder, a fim de reencontrar-se consigo mesmo e reconhecer-se digno de ser feliz.

Desconstruindo sim, mas buscando preservar o bem que tinha realizado, o bem que tinha semeado e que são tesouros inalienáveis em sua escalada espiritual.

Finalmente ele tinha reconhecido que era o momento, e que não adiantava mais chorar o tempo passado e aparentemente perdido, mas, na verdade, ganho, pois enfim estava pronto para revelar-se a si mesmo e a expressar sua individualidade com confiança.

Mas não foi fácil. Uma vida construída assim deixa marcas muito fortes na alma da criatura, que custa a se libertar das próprias algemas que criou e se refletem os medos que o impedem de se entregar a um relacionamento novo.

Ademais, ainda tem as cobranças lá de fora, os olhares, as críticas e as puxadas de tapete que recebe, que existem e doem muito na alma do Zé. Mas ele segue com confiança crescente e conquistada.

 É começar de novo, voltar à adolescência, porém com um mapa do tesouro que as vivencias proporcionaram.


Add Content Block

O QUE JOSÉ APRENDEU?

  1. Que o maior progresso que qualquer pessoa tem de fazer em sua vida, não é o bem que faz ao outro ou pelo outro, mas o bem que faz a si mesmo.
    Os primeiros, é claro, constituem patrimônios inquestionáveis na evolução do espírito em sua jornada de ascensão e de espiritualização.

  2. Que o verdadeiro progresso a se alcançar, ao final de cada vida, é o quanto se consegue realmente evoluir e se espiritualizar.

  3. Que é bom acolher a si mesmos cada vez mais e se expressar ao próximo com autenticidade.

  4. O quanto se tornou melhor.

  5. Que o progresso real é o quanto se cria espaço para a expressão do espírito como força e ação. O mundo íntimo, em verdade, começa onde o Reino de Deus é.

  6.  Que dentro de cada um, lá bem no fundo do coração, no mais sagrado recanto da alma, encontra-se aquele a quem mais devemos acolher em nossa vida: a si mesmo.  Aquele que o Zé deixou para trás para se tornar aquilo que a sociedade achava quem ou o que ele deveria ser. Que aquela era a sua essência mais pura e verdadeira, sem rótulos de cor, sexo, sexualidade, afetividade, opções e ideologias, ou interpretações humanas equivocadas de uma moral ou norma de conduta, que não valoriza a individualidade, que não acolhe a criatura como filho de Deus carente de si mesmo, de amor e de amar. Que valoriza a forma e não a essência.


O QUE PODEMOS CONCLUIR DA HISTÓRIA DO ZÉ?

Que todos somos filhos de Deus, cada um de nós. Que nosso Cristo interior precisa se expressar cada vez mais para libertarmos sua força.

A alma feliz é força atuante e intensa que leva ao outro, nessa expressão da sua crença, a sua realidade viva, pelo exemplo de ternura e respeito ao que se é ou a quem é diferente de si. É a presença do Criador que atua pelas mãos e pela boca daquele que erradia felicidade e que trabalha com alegria, reconhecendo no próximo a mesma força.

Deus assim se espalha naquele que O espelha, em espírito e em verdade. E o amor-caridade no qual vive e navega, doa de si o que tem de melhor e intenta fazer ao outro o bem da mesma forma que o conheceu dentro de si.

Simplesmente por que isso é bom e se é bom e é do bem, é Divino por natureza.

¹ Ricardo Gruppioni é médico homeopata.

Insert Image