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NO ESPELHO DA ALMA

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Autoconhecimento e Espiritualidade

Várias religiões e congregações pelo mundo afora nos dizem que devemos buscar dentro de nós a nossa luz ou o pedaço da divindade. Esta busca interna está intimamente ligada com a evolução moral que cada indivíduo deve fazer para alcançar uma maior felicidade nesta vida e na pós vida material.

Eu acredito plenamente que o autoconhecimento é a forma poderosa que temos para entender nossos próprios defeitos para que possamos moldá-los, transformando-os em defeitos menos intensos ou até em virtudes. Na minha opinião, todas as religiões e seitas do mundo propõem trabalhos diferentes, mas que possuem o mesmo objetivo: nos tornar seres humanos melhores e mais aptos a viver harmoniosamente em sociedade, mesmo com todas as diferenças existentes entre as pessoas.


Criação de Curtos-circuitos

Um trabalho de autoconhecimento profundo é o primeiro passo para nos trazer respostas sobre quais comportamentos temos, nas diversas situações que enfrentamos nas nossas vidas, como momentos de estresse, de alegria, de tristeza, de medo, de determinação para resultados, etc.

O segundo passo dessa caminhada consiste em desativar o nosso piloto automático que nos leva aos mesmos comportamentos prejudiciais nestas diversas situações comportamentais.

Por exemplo, Joaquim não percebe que começa a fazer ataques às pessoas quando é (ou quando apenas SE SENTE) colocado em uma posição de inferioridade perante um grupo. Neste momento, o sangue corre mais rápido nas veias e no cérebro de Joaquim, gerando uma taquicardia e uma alta frequência de pensamentos, fazendo com que Joaquim tenha uma percepção distorcida da realidade e não consiga argumentar de forma mais efetiva para resolver a situação. Assim, acuado e agindo por instinto, Joaquim começa a xingar a tudo e a todos, o que não ajuda a acalmar a situação.

O trabalho de autoconhecimento consiste em perceber os gatilhos que desencadeiam todo esse processo e, por meio da calma e da razão, voltar ao equilíbrio para que possamos tomar as melhores atitudes e decisões. Fácil não? Entender os nossos curtos-circuitos é a chave da solução dos nossos problemas!


Problemas por viver sem a sua essência

Acontece que, infelizmente, desativar estes curtos-circuitos não é fácil, pois muitas vezes eles estão mais fortes do que nunca com o acúmulo de vivências negativas ao longo da vida. Muitas vezes também, nós nem sabemos quais são as causas desses curtos-circuitos!

E agora entro na parte da minha aceitação como mulher trans e na busca pela minha autenticidade. Por muitos anos e, por questões culturais, eu vivi negando os meus desejos. No fundo, achava errado, estranho e indigno se um homem “não fosse homem o suficiente” e se comportasse de forma feminina, seja sexualmente ou socialmente.

Obviamente, isso tudo era reflexo de uma transfobia e uma homofobia internalizada que adquiri da sociedade, visto que, por exemplo, a imagem do homem gay nos anos 2000 era o palhaço do Pit Bicha¹.

Eu não queria ser vista como piada. Então, ao longo da minha vida, fui cortando qualquer coisa que eu gostasse e tivesse relação com o mundo feminino. Aprendi a “ser homem” aos olhos da sociedade, mas pagando um preço muito caro: deixei de viver a minha essência para agradar e atender às expectativas dos outros.

E essa atitude gerou tantos curtos-circuitos na minha personalidade que poucas vezes na vida consegui experimentar o gosto de viver plenamente e de ser quem eu sou. Em uma roda de amigos, a palavra “gay” já me trazia desconforto e me fazia entrar numa paranoia mental para policiar meus atos e gestos para não ser taxada como homem gay. Dessa forma não conseguia viver o momento presente livre de estresse.


Autenticidade: mais felicidade para mim e para os outros

Felizmente, após muitos anos de busca pelo autoconhecimento, admiti que a repressão dos meus sentimentos trans era uma das maiores causas dos meus curtos-circuitos. A partir daí, resolvi me aceitar e viver da forma como gostaria de viver. Os efeitos disso são muito legais de se perceber, pois hoje acho que consigo fazer mais bem aos outros e a mim, pois estou mais presente e consciente. Não caio com tanta facilidade nos mesmos comportamentos de piloto automático e consigo tomar decisões de forma mais racional.

A minha busca pela autenticidade consistiu em entender que eu deixei de viver a minha felicidade e essência pelo medo da repressão da sociedade. A partir do momento que percebi que os meus desejos não eram errados e que não fariam mal a ninguém (apenas aos olhares das pessoas preconceituosas) decidi buscar a minha essência e fazer as coisas que realmente me davam prazer.

Por isso é que digo, hoje não procuro apenas transicionar de homem para mulher, mas busco ser uma pessoa mais autêntica. Eu tenho o meu próprio jeito de ser mulher. É o jeito que eu gosto e que me faz bem, por mais que os papéis de gênero de “ser homem” e de “ser mulher” mudem ao longo do tempo (e que bom que mudam!).


Trabalho árduo mas gratificante

Como conclusão, digo que todo mundo tem os seus próprios curtos-circuitos e suas respectivas causas. No meu caso, a negação dos meus sentimentos trans era a causa do meu estresse e medo constante.

No seu caso, pode ser um assunto mal resolvido com o pai que gera a desmotivação com a vida. Pode ser uma busca desenfreada por reconhecimento que gera a depressão ao se encarar a dureza da realidade. Todas essas respostas serão respondidas se você tiver coragem necessária para encarar os seus defeitos e força o suficiente para combatê-los durante toda a sua vida.

A lista de defeitos é geralmente infindável, mas a recompensa desse trabalho é gratificante ao longo de nossa jornada nesse planeta!


Natália Cysne²


¹ Personagem criado e vivido pelo ator Tom Cavalcante em suas apresentações artísticas.

² Natália Cysne é uma mulher trans de 29 anos. Nasceu em Belo Horizonte e, devido à paixão pela área de exatas, cursou Engenharia Metalúrgica na Universidade Federal de Minas Gerais. Após anos de luta interna, hoje luta pela causa LGBT para trazer mais entendimento sobre o mundo Trans para às pessoas que não têm conhecimento sobre o tema. Adora estudar, entender e discutir sobre os mais diversos temas, tais como economia, política, ciências e culturas.

Conheça mais sobre os desafios superados pela Natália nos links:

https://www.youtube.com/watch?v=cP9tq7N3MJ4&feature=youtu.be