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O SIM é o descuido do NÃO

O título desse artigo compõe a letra da música “Sei lá a vida tem sempre razão” do CD de Vinicius de Moraes, faixa 16, que também dá nome ao disco. Não posso afirmar, mas suponho que o “Poetinha” não previa que a frase tivesse cunho didático ou educacional, principalmente em se tratando de criação de filhos nos dias de hoje. Mas cabe como uma luva.

Muito vem se falando sobre a educação das crianças, em especial de nossos filhos. Digo em especial porque antigamente, tipo, no meu tempo, a educação era de responsabilidade de qualquer pessoa mais velha. Fui criado para ser respeitoso com os mais velhos da minha rua, do meu bairro, da minha escola e da minha família.

Quando estava na rua fazendo uma traquinagem e era pego por alguém mais velho, corria sérios riscos de ser levado até minha mãe nas pontas dos pés, erguido, na tentativa falha de não deixar minha orelha se separar da minha cabeça.

Mas hoje não. Hoje as coisas são muito diferentes. E na medida que a distância etária entre pais e filhos aumenta, também aumenta a dificuldade de compreender como lidar com estes seres pequenos e tão cheios de autoridade. Conheço homens e mulheres que se intimidam diante de tanta confiança e da determinação de seus filhos.

Para nosso desespero, pelos menos para os pais mais velhos, o medo não é mais um recurso eficiente, infelizmente não funciona. Falo por experiência própria. O respeito agora deve ser conquistado e não imposto por ameaças de restrição a bens, comidas, passeios ou castigos. Mas isso, tenho certeza, não é mais novidade.

Sinceramente, não acho que limite ou falta de limite sejam problemas maiores hoje do que sempre foram. O problema é que o Sim (descuido do não) é prático, fácil e falsamente seguro. Explico: vejo que muitos pais têm a falsa impressão de que quando cedem ao Sim estão efetivamente resolvendo um problema, principalmente quando falamos da primeira infância.

Na verdade, nossos filhos serão nossos filhos por muitos e muitos anos e, se prevalecer a velha e boa regra da natureza, partiremos antes deles. Por isso, as consequências podem ser duradouras e por vezes desastrosas. Hoje em dia, falar o Não exige cumplicidade e argumentos, muitos argumentos. Enquanto dizer o Sim “resolve”, o Não “complica”. E isso dá muito trabalho, requer tempo e dedicação.

Mas quem foi que lhe falou que seria diferente? De qualquer forma, posso, “no alto” dos meus quase 48 anos, com três filhos adultos e com suas vidas encaminhadas (pelo menos aparentemente!) lhes garantir que o Não é amigo dos pais e dos filhos quando dito e respaldado pelo verdadeiro amor de quem se importa com alguém que realmente significa muito.

Ao valente leitor que chegou até esta linha, conto um caso. Quando minha filha do meio, Mariah, estava na antiga quinta série, com uns onze anos, me chamou para conversar e disparou a seguinte requisição: “Pai, quero beijar na boca, posso?”. Mais tarde, aos dezoito anos, fez encontro de jovens e para o famoso “Saco do Choro¹” escrevi um conto onde numa espécie de toma-lá-dá-cá repasso alguns momentos de nossas vidas e incluo este episódio. Espero que gostem.


Passou rápido²

- Não veio.

- Não veio?

- Vamos torcer para ser menina.

- É menina!

- E o nome? Maria?

- Hum... Maria sofre muito, pelo menos é o que minha mãe diz

- Mariah.

- Lindo, muito lindo, mas vai dar o maior trabalho…

- Como assim?

- Mariah com agá no final – bla bla bla – e mais explicações do sobrenome.

- Mas é lindo

- É linda mesmo

- Já está andando, falar que é bom nada.

- Espera.

Um ano e nada. Um ano e dois meses, nada. Um ano e três meses…

- Putz! Não para de falar.

- A Tia da escolinha disse que ela bebeu água de chuva.

- Pai, o que sou?

- Menina, ué.

- Não pai, qual a minha religião? Crente, católica, espírita?

- Ai caramba, aqui em casa não somos religiosos.

- Mas eu e minha irmã não somos batizadas, não é?

- Não são.

- Eu quero me batizar.

- Vamos procurar um padre.

Veio todo mundo, até os parentes do Rio de Janeiro. Padre Fernando foi superlegal. Depois saímos para almoçar e comemorar o batismo

- Pai, quero falar com você.

- Hum..., lá vem bomba.

- É sério. Fecha a porta do quarto e se senta.

- Fala filha.

- Pai eu posso beijar na boca?

Silêncio…

- Pode, claro que pode. Mas pensa assim, eu não brinco de carrinho, não solto pipa, nem jogo bolinha de gude. Acho que tudo tem uma hora certa.

- Beijar na boca é muito legal. O meu medo é que agora você beije na boca e não goste tanto e, depois quando for bom, você fique com uma lembrança ruim.

Na escola.

- Eu não beijo na boca porque não quero, meu pai disse que eu posso beijar se quiser.

- Mentira!

- Verdade.

- Verdade, pai? perguntou a supervisora.

- Sim é verdade sim.

- Pai, quero falar com você

- Ai, ai, ai. O que é agora?

- Tô namorando.

- Bom, isso é bom. E?

- Tô querendo dá…

- Como?

- Dar uma volta com meu namorado.

- Sei, já conversou isso com sua mãe?

- Sim, marcamos uma consulta.

- Tem que tomar todo dia no mesmo horário

- E quem é a vítima?

- Um carinha bem legal que gosta de música.

- Vacilão.

- Fica assim não, a fila anda.

- Mas tá doendo muito.

- Chora, chora muito que passa rápido.

Algum tempo depois.

- Pai, avisa pra mãe que passei na prova de direção.

- Putz! agora danou-se!


Fico por aqui e até a próxima!

Paulo Canarim

¹ No evento EJC – Encontro de Jovens com Cristo – os participantes ficam internos por três dias. Em dado momento, eles recebem um saco com mensagens dos familiares e amigos, que são recolhidas, em segredo, pelos organizadores do evento. Aí é um chororô danado. (N.A.)

² Texto extraído do livro Colar de Ossos e outras Histórias, autor Paulo Canarin. Disponível na amazon.com.br. (N.E.)

³ Paulo Canarim é pai do Vinicius, da Mariah e da Nathália É pedagogo, escritor, contista e executivo da Nautilos Marketing Digital. (N.E.)

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