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cruzada vida Edgard Armond

Nas cruzadas da vida

Pelo Espírito Edgard Armond[1]

Quase no final do período das Cruzadas, quando as expedições militares para o pró-cristianismo já estavam se rareando, um rapaz europeu resolveu aventurar-se numa viagem para o Oriente Médio, em busca de dinheiro, fama e glória. Ele abandonou a família e, sozinho, partiu rumo ao desconhecido.

Havia, no coração do antigo Oriente, reminiscências pouco verdadeiras de um culto aos militares que, décadas atrás, havia sido agraciados com feitos heroicos, a maioria na verdade covardes, pela defesa da cristandade. Mas tudo não passava de folclore, propagação de guerra para atrair jovens para a defesa das Cruzadas cujo objetivo inicial nem existia mais.

E esse nosso jovem se dispersa de seu comboio, da sua caravana militar, pois não havia mais nada a ser feito. Por conta de um período de trégua as batalhas já haviam cessado e só restava a todos os militares o retorno à pátria. Mas o jovem não queria voltar para casa sem os louros da glória, sem as riquezas prometidas, sem as provas de sua coragem. Sua ambição era tornar-se um cavaleiro templário; então, voltar pra casa sem nada seria para ele falta de grandeza.

Mas não havia nada na missão falida, apenas um pequeno grupo de soldados cansados que teriam que retornar pra casa e torcer para não morrer no caminho de volta. Assim, o jovem resolve ficar no Oriente, perto de onde fora a casa do templo. Ele se separa de seu grupo e perambula pelas redondezas, pensando no que faria dali pra frente.

A mendicância, porém, bate à sua porta. Sem um lugar para ficar, para tomar banho, ou comer, sem moedas, ele se perde, sem rumo, nas ruas da cidade santa. Passa frio, fome, e está prestes a pegar doenças pela falta de higiene.

E assim ele fica por muito tempo.

Havia, ali por perto, um cachorrinho que também perambulava pelas ruas em busca de comida. Um vira-lata, um ser invisível. Ninguém o notava, ninguém o enxergava. Na verdade, uma criança da redondeza o percebia, mas tratava-se de uma criança pobre, cuja família não aceitava mais uma boca para alimentar. Sempre que podia a criança pegava do seu próprio pão e alimentava o cãozinho às escondidas. Mas nem sempre o cão se aproximava, pois era sempre enxotado. Então, ele aguardava sempre que o menino o chamasse e, assim, tinha do que comer. Ninguém, ninguém na cidade percebia que aquele cão existia. Somente aquele menino dividia com ele o pouco que tinha.

O mesmo acontecia com o nosso jovem, aprendiz de soldado, que agora esmolava a atenção das pessoas. Os únicos que lhe davam atenção eram os tão pobres quanto ele. Acima destes, não havia autorização para que, sequer, chegassem perto daquele novo mendigo. Os ricos da redondeza eram cercados de proteção contra o que eles definiam como “os de classe inferior”.

E foi nesse cenário que o cãozinho se aproximou do nosso jovem e ficou ali, por perto, nem muito longe, nem muito distante; deitado, esperando o dia acabar. Nosso jovem, porém, sentiu a presença do cão e, ao amanhecer, pensou:

“— Esse animalzinho deve estar com fome, ele se deitou aqui comigo e desde ontem não saiu mais!”

Então, o jovem se levantou pela primeira vez, depois de sentir exaurida de suas forças, e pensou em buscar algo para dar de comer ao menos ao animalzinho. O cão o acompanha apenas com a cabeça e o olhar; já não tinha mais força para se mover, de tanta fome. Nosso jovem faz um gesto simples, com o olhar, com as mãos ou com a cabeça, enfim, alguma coisa que o cão compreendeu e voltou sua cabeça para o chão, a deitar-se e a esperar.

Qual não foi a surpresa quando o jovem retornou com o que comer e dividiu com o cão. Foi assim que o jovem encontrou seu primeiro amigo na cidade santa. E foi assim também que o cão passou a segui-lo pelas estradas de Jerusalém. De tantos outros que se sentem privilegiados por viver na terra onde pisou Jesus, o jovem foi o primeiro a fazer companhia para o cão.

Certo dia, houve chuva, vento e frio. Nosso jovem ficou preocupado mais com o cão do que consigo mesmo; então buscou um lugar coberto para se abrigarem, o que seria hoje, se pudéssemos comparar, uma marquise. Chegou a um lugar onde já havia outro mendigo morando que, sentindo a presença do jovem e do cão, apenas tirou o pano grosso que cobria a cabeça, olhou o jovem de cima a baixo, avistou o cão, cobriu a cabeça novamente e voltou a dormir.

Para o jovem aquele gesto era um sinal de que eles poderiam ficar. Então ele se acomodou ali com o cãozinho aguardando a chuva, o frio e a noite findar e a fome, sempre presente, passar.

Pela manhã, o jovem se levantou e saiu em busca de algo para comer. O cão, já confiante de seu novo dono, ficou aguardando ali, em seu conforto.

Para surpresa de todos, dessa vez o jovem, além do pão, trazia duas xícaras de sopa, quentes e novas. Ele acordou o mendigo e ofereceu a comida sem dizer uma única palavra. E foi assim como tudo começou, até o dia em que os três já estavam acostumados naquela rotina de não dizer nada um ao outro e buscar apenas pelo o alimento do dia.

Um dia, acostumado com a rotina da cidade, o jovem se aproxima de uma moça que, de tanto ajudá-lo de alguma forma, convence ao pai de arrumar um trabalho aquele mendigo em troca de alguma moeda.

Numa bela manhã de sol, depois de ter vivido tanto tempo com a amargura da própria vaidade e do próprio orgulho, deixado de lado há muito tempo, o jovem acorda, finalmente, bem disposto. O cãozinho, acostumado com a rotina desconfia, mas o jovem avisa:

— Vou trabalhar, fique aqui até eu voltar!

O cãozinho tentou, por diversos dias, seguir seu dono na preocupação de perdê-lo de vista, mas o jovem não tinha autorização do pai da moça para trabalhar acompanhado de um cão. Então, o jovem alertou ao outro mendigo:

— Você precisa, ao menos, cuidar do cão. Ele não pode me seguir; vou ao trabalho, se não, não teremos o que comer.

O mendigo acordava pela manhã e já não colocava o pano grosso sobre a cabeça, pois agora tinha que cuidar do cãozinho. Em hipótese nenhuma aquele cão poderia se perder nas ruas da cidade santa. E foi a primeira vez, depois de muito tempo, que aquele outro mendigo se sentiu útil e importante, porque cuidar dos animais é uma das coisas mais importantes que o homem pode fazer perante os olhos de Deus.

Para a moça, por sua vez, havia no jovem uma determinação que ela não enxergava em nenhum outro homem da região por quem ela pudesse se interessar. Todos eles eram muito interessados nas coisas da matéria. Ela não via nenhuma garra, nenhum brilho nos olhos, nem mistério, como via naquele jovem que buscou ajudar. E ele contou a ela que estava vindo com as batalhas das Cruzadas e que o orgulho o cegou. Disse que sentia saudade da terra natal, de seus pais e irmãos, mas que não voltaria para Europa sem primeiro vencer na vida.

Naquele dia, o jovem volta para seu acampamento improvisado com seu ânimo restaurado. Há muito não tinha com quem conversar e falar de sua história, isso quase tirou dele uma mágoa. Ao chegar na marquise, dividiu a sopa boa e o pão novo com o cão e mendigo e aconselhou a ele:

— Veja, eu consegui fazer algo em troca de moedas, não é muito mas é um pouco, dá pra recomeçar minha vida; você precisa se levantar e fazer o mesmo.

Ao que o mendigo respondeu:

— Mas eu já tenho o meu trabalho, eu cuido do cão.

O tempo passou, o jovem e a moça se apaixonaram.

Caro leitor, quem me contou essa história foi um amigo querido, assim que eu cheguei aqui no espaço onde me encontro hoje, um hospital de passagem numa colônia espiritual próxima do litoral. Essa história ecoou em minha cabeça durante muito tempo. E confesso que pensei bastante nela, pois ela me guardava algo de familiar. E agora quero dividi-la com você, pois o amigo que me contou essa história, verídica, disse ainda que chegou o dia em que o jovem daquela história iria se casar com a moça que o havia ajudado e ele tinha que tomar uma decisão muito importante.

A decisão mais importante de sua vida, ele sabia desde que resolvera guerrear nas Cruzadas.

Ele finalmente se casaria com a moça e viveria uma vida nova. E levaria seu cão, claro, afinal, nenhuma família é mesmo feliz sem um animalzinho por perto.

Mas, ao fazer isso, o jovem, agora um ex-combatente das Cruzadas, deixaria o amigo mendigo sozinho, sem ninguém para auxiliá-lo no encorajamento para uma mudança da própria vida e, pela lógica daquele, sem trabalho. Afinal, cuidar dos animais, aos olhos de Deus, também é um trabalho.

Mas haviam outras saídas para aquela situação? Nosso jovem também poderia, por exemplo, deixar o cão com o mendigo e seguir sua própria vida; mas, se fizesse isso, ele teria, para sempre, saudades do amigo mendigo e do cão que o ajudou a se levantar na vida.

Caro leitor, peço que pense profundamente nessa história e, colocando-se no lugar do jovem central de nossa história, respondam:

No lugar dele, o que você faria naquele momento?

Ao responder a essa questão, e ao descansar seu coração de toda angústia que o próprio jovem sentia naquele momento, você poderá também responder a si mesmo as questões que estão te deixando inquieto.

Faça isso para si próprio, no íntimo, pois Deus não abandonaria aquele jovem europeu à mercê da fome, numa terra estrangeira; nem deixaria o cãozinho à mercê da invisibilidade humana; nem mesmo o mendigo da falta dos dois amigos que o fez se sentir de novo vivo.

E se sentir vontade de dividir com a gente sua reposta, o nosso e-mail é [email protected]

Deus nos une, irmãos, para que, juntos, possamos vencer na vida!

Irmão Edgard Armond

[1] Mensagem do Irmão Edgard Armond, do Complexo de Hospitais de Passagem da Irmandade da Luz (situado no plano astral da cidade de Santos).

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